sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Cara de Cavalo

Os bares de Copacabana são pródigos em reunir bêbados com uma característica específica: os que batem cartão no balcão. Seja morte da mãe, aniversário de quinze anos da filha ou um mal súbito do pai, o sujeito está sempre por lá, contando as mesmas bravatas ou as velhas histórias como se tivessem o signo do novo e do original. Aos que são fisgados por esse canto da sereia, só resta balançar com a cabeça e aguentar com os toques sequenciais no corpo para alertar o interlocutor.
Aos finais de semana, Jairo tinha a prática de chegar ao bar no fim da manhã e só se retirar à noite, quando já era rebocado pela esposa ou por uma das filhas pequenas. Era futebol, churrasco, cerveja, traçado e conversa fiada regada a gritaria. No fundo todos falavam e ninguém se ouvia. E tinha vários assim como ele. O Orlando, o Cachoeira, o Demê, o Antunes e o Rival. Trocavam as programações de mulheres e filhos para viajar no fascínio das ancas das moças praieiras.  
O Cara de Cavalo, o catador de papelão, passava sempre por lá para filar cigarros, doses de pinga e uns espetinhos de churrasco. Os homens faziam uma farra imensa com ele. E eles adoravam mexer com o fato de que o catador não suportava palavrões. “Ô Cara de Cavalo, olha aquela buceta na calça de lycra! Não metia a piroca nela? Eu passo uma lábia nela para você. Pago o motel se rolar”, um ou outro dizia. “Que é isso, rapaz? Falta de respeito!”, emendava e seguia caminho. Muitos diziam que o Cara de Cavalo tinha ido parar na rua por causa de um amor frustrado. Já tinham inventado até um nome de mulher, uma fortuna desperdiçada e uma família que ainda busca por ele. E cada um tem a sua própria versão da história alheia.
Com o tempo, o homem foi se acostumando com o linguajar e ficando mais entre os convivas. A fome e a solidão faziam um peso muito maior na balança do que o melindres com palavrões e termos chulos. Cara de Cavalo passou a ser o último a se retirar do bar. Só saía quando a mulher de Jairo vinha recolhê-lo para a cama, onde deitava sem banho e de sapatos, para somente levantar no dia seguinte como se nada tivesse acontecido.
Conforme o tempo foi passando, o repertório de brincadeiras foi se tornando ainda mais pesado.
“Cara de Cavalo, eu deixo você comer minha mulher. Só que você tem que levar três frangos assados, muito torresminho, um engradado de cerveja e uma garrafa de whisky”, pilhava o Jairo.
Repetia semanalmente a chacota, sempre aumentando o número de itens para o outro alcançar o feito. O grupo ria de se arrebentar dos gracejos infames.
Em um domingo, Jairo já caía pelas tabelas no meio da tarde. Cara de Cavalo não deixava que o copo dele ficasse vazio um só instante. Misturava o que podia para garantir que o bêbado ficasse ainda mais chapado. Quando notou que o nocaute técnico era questão de olhar do juiz, o catador saiu à francesa.

A campainha da casa de Jairo soou poucos minutos depois. Quando a esposa de Jair atendeu a porta, Cara de Cavalo estava de joelhos, com uma caixa de bombons, uma flor branca e um poema ruim escrito com letra tremida.

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