quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Trem fantasma

O trem fantasma é um dos brinquedos mais populares em um parque de diversões. Nas primeiras versões, os donos dos parques espalhavam coisas sombrias durante o trajeto do trenzinho. Conforme o tempo foi passando, caixões com múmias, bonecos molengas e cruzes passaram a incrementar o itinerário dos frequentadores. Por fim, a modernidade trouxe a presença de atores - para interpretar monstros - e tecnologia para surpreender os incautos.
O Parque Millenium era localizado em uma zona nobre da cidade, mas, dentro de sua localização, existiam comunidades em guerra. O confronto entre traficantes e a polícia viviam trazendo os boatos que bandidos estavam escondidos no parquinho. Por várias vezes a polícia deu batidas que não resultaram em presos ou indícios de transgressão às leis.
Chico Vela era o nome do chefe do tráfico da comunidade Trevo de Seis, que se encontrava em guerra com o morro ao lado, a Pedreira. Em uma dessas guerras por controle, o traficante foi acuado e obrigado a fugir debaixo de tiros. A lenda urbana acabou encontrando a verdade quando o meliante se refugiou no Millenium, exatamente no trem fantasma. Ele e mais cinco conseguiram fugir com algumas armas, um pouco de drogas e mantimentos para poucos dias. Desalojaram a múmia, levantaram vários quebra-molas no entorno, barricadas com sacos de cimento, e construíram um pequeno barraco no lugar. Vizinhos, o vampiro e o lobisomem nem se incomodaram com o que acharam que fosse mais veracidade no entretenimento.
Depois de um período, os recursos de Chico Vela e dos comparsas começaram a escassear. Como medida de solução, os meliantes começaram a cometer roubos, a vender drogas e a praticar violências de todos os tipos no brinquedo. Os atos chegaram aos ouvidos da administração do parque, que resolveu acionar a polícia. A polícia achou divertida a ideia e se instalou como atração ao lado dos traficantes, onde eles fingem que brigam e ganham uma parte dos lucros pela interpretação.

O público achou sensacional. O Millenium passou a ficar lotado todos os dias. Filas quilométricas até o fim do expediente. Turistas de outras cidades e de outros países vêm com a intenção de sofrerem um assalto programado, agressões gratuitas, latrocínios e de comprarem entorpecentes nas mãos de genuínos bandidos. O parque se empolgou tanto com o sucesso que contratou até um Secretário de Segurança para dar desculpas aos usuários.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Cara de Cavalo

Os bares de Copacabana são pródigos em reunir bêbados com uma característica específica: os que batem cartão no balcão. Seja morte da mãe, aniversário de quinze anos da filha ou um mal súbito do pai, o sujeito está sempre por lá, contando as mesmas bravatas ou as velhas histórias como se tivessem o signo do novo e do original. Aos que são fisgados por esse canto da sereia, só resta balançar com a cabeça e aguentar com os toques sequenciais no corpo para alertar o interlocutor.
Aos finais de semana, Jairo tinha a prática de chegar ao bar no fim da manhã e só se retirar à noite, quando já era rebocado pela esposa ou por uma das filhas pequenas. Era futebol, churrasco, cerveja, traçado e conversa fiada regada a gritaria. No fundo todos falavam e ninguém se ouvia. E tinha vários assim como ele. O Orlando, o Cachoeira, o Demê, o Antunes e o Rival. Trocavam as programações de mulheres e filhos para viajar no fascínio das ancas das moças praieiras.  
O Cara de Cavalo, o catador de papelão, passava sempre por lá para filar cigarros, doses de pinga e uns espetinhos de churrasco. Os homens faziam uma farra imensa com ele. E eles adoravam mexer com o fato de que o catador não suportava palavrões. “Ô Cara de Cavalo, olha aquela buceta na calça de lycra! Não metia a piroca nela? Eu passo uma lábia nela para você. Pago o motel se rolar”, um ou outro dizia. “Que é isso, rapaz? Falta de respeito!”, emendava e seguia caminho. Muitos diziam que o Cara de Cavalo tinha ido parar na rua por causa de um amor frustrado. Já tinham inventado até um nome de mulher, uma fortuna desperdiçada e uma família que ainda busca por ele. E cada um tem a sua própria versão da história alheia.
Com o tempo, o homem foi se acostumando com o linguajar e ficando mais entre os convivas. A fome e a solidão faziam um peso muito maior na balança do que o melindres com palavrões e termos chulos. Cara de Cavalo passou a ser o último a se retirar do bar. Só saía quando a mulher de Jairo vinha recolhê-lo para a cama, onde deitava sem banho e de sapatos, para somente levantar no dia seguinte como se nada tivesse acontecido.
Conforme o tempo foi passando, o repertório de brincadeiras foi se tornando ainda mais pesado.
“Cara de Cavalo, eu deixo você comer minha mulher. Só que você tem que levar três frangos assados, muito torresminho, um engradado de cerveja e uma garrafa de whisky”, pilhava o Jairo.
Repetia semanalmente a chacota, sempre aumentando o número de itens para o outro alcançar o feito. O grupo ria de se arrebentar dos gracejos infames.
Em um domingo, Jairo já caía pelas tabelas no meio da tarde. Cara de Cavalo não deixava que o copo dele ficasse vazio um só instante. Misturava o que podia para garantir que o bêbado ficasse ainda mais chapado. Quando notou que o nocaute técnico era questão de olhar do juiz, o catador saiu à francesa.

A campainha da casa de Jairo soou poucos minutos depois. Quando a esposa de Jair atendeu a porta, Cara de Cavalo estava de joelhos, com uma caixa de bombons, uma flor branca e um poema ruim escrito com letra tremida.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Ball and Chain

Havia uma tribo que não tinha o registro da palavra liberdade em seu repertório. E isso acontecia porque não era necessário registrar algo que era tão natural quanto respirar, ver ou sentir aromas. Todos eram livres para se comportar da maneira como queriam. Executavam coisas no momento em que a vontade lhes tocasse. A linguagem não representava grilhões em seus tornozelos. Palavras surgiam e evanesciam conforme a necessidade de se expressar. E a palavra não cumprindo com o seu trabalho, os gestos ou olhares (ou os dois) tratavam de complementar o que devia ser preenchido. Se queriam andar nus, andavam; caso quisessem adotar uma tanga, faziam assim.
Um ponto negro se inseriu no centro do sol. E foi se tornando cada vez mais dominante, até que trouxesse uma noite precoce àquela aldeia. Uma lona branca enorme caiu próximo ao local onde as crianças praticavam suas estripulias. Repentinamente, a luminosidade da estrela maior voltou a clarear o cenário. De repente, um homenzinho vermelho surgiu de dentro do grande pano branco. Se aprumou e limpou a poeira do uniforme alvo que vestia dos pés à cabeça. Trazia um grosso livro de capa preta debaixo do braço direito e uma sacola pendurada nas costas. Olhava os homens curiosos como se fossem insetos crescidos.
Os locais se aproximavam cada vez mais do homem. Queriam analisá-lo da maneira mais primitiva. Quando observou que a distância e a forma como o checavam ficava cada mais incômoda, o homenzinho fez uso de sua sacola gigantesca. Abriu-a e retirou comidas, temperos, espelhos, fragrâncias, colares de contas, roupas, enfeites para os cabelos, relógios, quadros, instrumentos musicais, serras, facas e foices. Distribuiu o conteúdo da Caixa de Pandora entre os nativos. Os homens pareciam hipnotizados com tantas novidades.

O nanico aproveitou-se da distração para começar a ler o livro negro que trazia consigo. Chamou-o de Livro das Regras. Leu o exemplar com uma entonação que deixava os homens com uma expressão que lembrava entendimento. Babavam uma saliva elástica enquanto ouviam o orador diminuto. Fez isso repetidas vezes ao longo dos outros dias. Tanto foi lendo que os aborígenes assimilaram suas palavras. Conforme a compreensão verdadeira da obra chegava, os tribais iam ficando com a mesma cara, tamanho e cor do homenzinho. Depois todos eles se diplomaram na língua e a adotaram como mãe, se banharam, se perfumaram, se vestiram igual ao tampinha, tiraram RGs e CPFs, pagam IPTU e IPVAS, aprenderam o valor do dinheiro e do egoísmo. A adversidade vem das correntes que saem de seus punhos e tornozelos e que eles arrastam pelas andanças, sempre apressadas, ainda que limitadas pelo excesso de leis, como se possuíssem um objetivo sério.  Eles gostam de se chamar de Raça Humana, mas, sinceramente, são apenas palavras.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Parati azul

Prostitutas e travestis ocupavam aquele espaço que circunda um grande parque. Era comum vê-los por ali da hora em que anoitecia até pouco antes do amanhecer. Circulavam no ponto a bel-prazer, conforme a necessidade do cliente. Uns preferiam o conforto do motel; outros, a rapidez do carro. Havia uma tabela para todas as preferências de lugar e de desejos. E caso o freguês resolvesse pechinchar no valor, a barganha podia ser feita para que se chegasse a um denominador comum.
Eram tempos de violência nas ruas. Muitos dos que vendiam favores sexuais já tinham sido agredidos ou mortos. Nem chegavam a virar estatística, pois, geralmente, interessavam somente a um grupo de amigos e à família. Garotas de programa não afetam a sensibilidade da família brasileira e nem fazem os jornais saírem das bancas.
Uma Parati azul circulava há algum tempo na área de prostituição. Tinha virado uma espécie de lenda do lugar. As pessoas já até esperavam para ver a circulação. Tentaram fazer vídeos ou tirar fotos, mas a placa estava coberta com fita adesiva preta. O vidro fumê não permitia que fosse revelado o ocupante do veículo. Normalmente parava por quinze segundos ou passava em uma velocidade muito baixa. A especulação variava entre timidez e intimidação. Muitos já tinham até abandonado o ponto com medo de levar o tiro de uma hora para outra. Em uma dessas situações, Milady teve a infeliz ideia de correr na direção do carro. Colocou a mão no capô para fazer graça, a Parati arrancou com uma velocidade absurda, deixando a travesti de bunda no asfalto.
Uma vez, quando ninguém mais esperava que o motorista apresentasse sua identidade, o carro parou no mesmo ponto de sempre. O vidro do carona abriu o suficiente para a passagem de um braço. Uma mão apontou para Jessica, uma menina de seus vinte poucos anos e com cara de índia. Pelas roupas, vocabulário e modos, nem parecia que precisava daquilo. E não precisava mesmo. Na realidade, a moça só estava ali para realizar um laboratório para um papel que faria em uma peça de teatro. Já mantinha o disfarce há uns dois meses.
Entrou no carro.
Quando apurou melhor a vista na escuridão, viu um idoso ao volante. Tentou limpar a visão para examinar melhor o rosto. Cabelos brancos fartos com uma mecha cobrindo a testa sulcada. Óculos com lentes grossas. Olhos grandes e curiosos. Pele muito enrugada, com marcas negras de tempo. Era familiar até demais. Foi quando veio o lampejo.
“Vovô!!! O que você está fazendo aqui???”
“Foi ideia de sua mãe. Não tenho nada a ver com isso. Sua mãe é que estava cansada dessa brincadeira e pediu para eu vir aqui para levá-la para casa. Ela quer que você pare de brincar de teatrinho no meio dessas rampeiras e desses veados. Inclusive ela está aqui. É aquele travesti gordo que está ao lado daquela puta loira ali.”
A menina olha para o avô e diz baixinho, “Tem vindo todos os dias. Quase não para no ponto. Está sempre com o mesmo cliente.”

O velho ri de soluçar. Não consegue mais parar. Quando dá uma pausa, ele retoma o fôlego e diz, “Esse é o disfarce do seu pai”

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Idiossincrasias

Reynaldo era um sujeito beneficiado pela genética. Pele jambo, olhos verdes, longos cabelos encaracolados, sorriso perfeito, corpo musculoso e uma grande simpatia. É verdade que contribuía um bocado para o estereótipo do homem bonito e burro, mas isso era  relevado por conta da forma como o rapaz costumava levar a vida. Principalmente entre seus amigos, onde costumava patrocinar as farras.
O moço era herdeiro de uma das famílias mais abastadas da cidade. Filho único. Um autêntico Sousa D`Ávila, sobrenome no logotipo em um dos mais importantes escritórios jurídicos do país. O preço de ter uma vida mansa era liberdade cerceada. O dinheiro vinha na mesma medida em que as cobranças eram executadas.
Aos 25 anos, o jovem só queria saber de pegar onda e frequentar as baladas. Raramente sabia o que tinha sido servido no café da manhã. O despertador era o tilintar de garfos e facas e o bater de copos e pratos. Já tinha trancado a faculdade de direito umas cinco vezes; a de administração, outras duas. Fora os cursos que mal passavam da inscrição.
Alberto, o pai, estava exausto em arrumar-lhe trabalho no escritório de amigos. O recorde pessoal de permanência profissional de Reynaldo era de três meses.
Além de inventar futilidades para gastar os fartos vinténs, o ofício de Elisa era arrumar desculpas e dizer que o filho era muito garoto para aturar aquela pressão toda do patriarca. Um dos maiores prazeres da matrona era colocar o marmanjão no colo e ficar fazendo cafuné. Apesar das inúmeras empregadas, ela mesma fazia questão de fazer a comida do mancebo. Ridículos mesmo eram os aviõezinhos na boca. Até hoje ele não sabia direito como utilizar os talheres na mesa. Só comia tudo bem picadinho.
A idiossincrasia do rapazote era o gosto por um tipo específico de mulheres. Por seu perfil de Adonis, ele poderia seduzir a grande maioria delas. E fazia mesmo suspirar uma parte considerável da ala feminina. Porém, ainda que as belas lhe desejassem e se declarassem abertamente, ele não queria nada com elas. Chegava até a ser descortês com as insistentes. Só tinha desejo pelas feias. Aliás, quanto mais desarmoniosa a mulher fosse, mais Reynaldo ficava louco.
Um dia, Alberto chegou do trabalho com um ar cansado, desolado, e pediu a palavra no jantar. Informou ao filho e à esposa que tinha sido diagnosticado com Alzheimer, ainda em estágio leve. Queria fazer um pedido específico a Reynaldo. Segundo ele, a solicitação seria a última que faria em vida. Caso conseguisse realizar, teria tudo dele. O advogado queria um neto.
O surfista seduziu e engravidou Gerusa, uma doidinha que ficava gritando palavrões pela rua. Levou a mulher para casa e assumiu o filho. Quando ela se excede, ele dá dois comprimidos que colocam a coisa nos eixos por horas. Dá tempo de sobra para ir a praia ou nas festanças. E ela não tem nenhuma vaidade.

Agora muito manso, o vovô virou o cavalinho do neto. A avó da criança é que virou a encarregada dos coices. É muito provável que as primeiras palavras do moleque sejam nomes horrorosos.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O Bicho

(Inspirado pelo poema homônimo de Manuel Bandeira)

Com o advento das pré-estreias cinematográficas em sessões de meia-noite, os adolescentes começaram a encarar isso como uma espécie de aventura. E a situação ficou ainda evidente com o grande surgimento de filmes de super-heróis. Haja lançamentos e expectativas. Usando a desculpa da integração, da segurança e de uma boa pizza, Amarildo e Janete se infiltravam no programa dos dois filhos. O filme da vez era o novo da franquia Homem-Aranha.
Cumpriram toda a programação pós-filme com uma meio Calabresa meio Portuguesa, chopes e refrigerantes. E ainda incluíram uma rodada de Petit Gateau com sorvete de creme e calda de chocolate para o grupo. Acabada a farra gastronômica, como o cinema e a pizzaria ficavam próximos de casa, decidiram seguir a pé para desgastar. Caminhada de duas quadras até o destino. Não dava nem tempo de serem alcançados pela violência urbana. O frio do inverno fazia com que andassem ainda mais rápido. A família morava em um prédio pequeno, localizado no fim de uma rua estreita.
Quando estavam a uma distância de cinquenta metros do edifício, avistaram um animal grande remexendo o lixo do condomínio de forma furiosa. O focinho do bicho farejava incansável em busca de alimento. Tombava os latões de detritos para que pudesse selecionar algum tesouro na pilha de coisas deterioradas, garrafas, papéis, jornais e papelões. No que encontrava um naco de banana, migalhas de biscoito, sobras de quentinha ou uma metade de um pão, a criatura, sem exames, enfiava o achado de uma vez na boca. Engolia com avidez.
Atônitos, sem conseguir rotular a aberração, Amarildo, Janete e as crianças se mantiveram em uma zona de conforto. O gesto do pai de família foi pegar um pedaço de madeira para investir contra a fera caso fosse necessário. Pediu para a esposa e os filhos permanecerem escondidos atrás de uma caminhonete estacionada. Foi avançando pé ante pé, medindo os passos e avaliando os movimentos do monstro.
Ao chegar na faixa de quinze metros, Amarildo deduziu que se tratava de um quadrúpede muito peludo e escuro. Talvez fosse uma besta evadida do zoológico.  A pele do ser fumegava com o ar gelado.

Aproximou-se ainda mais. O monstrengo estava tão entretido com seus restos que nem se apercebeu da movimentação no entorno. Amarildo preparava-se para desferir um golpe que nocautasse o oponente. Ergueu as mãos bem alto para realizar a agressão. Indefeso, o animal olhou-o nos olhos nesse exato instante, com um pedido implícito de clemência. Tinha os olhos vermelhos e embotados do que parecia ser esgotamento pela busca quase vã. O que parecia escuridão da pele era somente sujeira; os pelos excessivos, andrajos que tinham grudado no couro.  O bicho não era um cão descomunal, não era um gato modificado geneticamente ou uma bizarrice não catalogada. O bicho, meu Deus, era um homem.

Das aparências

Maria de Lourdes trabalhava duas vezes por semana como cuidadora de idosos. Por sua vez, o Policial Militar Mauro, o marido da suposta enfermeira, complementava sua renda como segurança de um prédio comercial. O casal tinha dois filhos pequenos, que eram deixados com uma tia materna para que eles pudessem trabalhar no período noturno e ter uma renda melhor para a subsistência da casa.
Todavia, as informações acima fornecidas caberiam muito bem para ilustrar um álbum de família florido. A realidade esfregava na cara que Maria de Lourdes e Mauro realizavam atividades completamente diferentes das que informavam aos seus convivas. Os empregos eram substituídos por encontros noturnos com os amantes.
No entanto, o importante era manter a pose no culto de domingo e orar antes de consumir as refeições diárias. Pensavam que a infelicidade era menos dolorosa do que separar aquilo que supostamente Deus uniu. E Deus que se virasse com a culpa sozinho.
Casaram apenas para honrar o nascimento do primeiro filho e foram permanecendo juntos. Mauro colocava comida na mesa, Maria de Lourdes caprichava na arrumação da casa. O sexo era realizado somente para manter os votos da sociedade. O policial botava os pés em casa para comer, ver o futebol e dormir. Às vezes, quando se recordava, fazia um cafuné em um dos filhos. A mulher passava os dias mexendo no celular e distribuindo berros e cascudos nos moleques.
Um dia eles tiveram a infelicidade de escolher o mesmo motel para fazer pernoite. Estacionaram o carro ao mesmo tempo na garagem do lugar. Quando saíram dos carros, ambos se avistaram e fingiram que não se conheciam. Talvez não se conhecessem mesmo. Sem que os parceiros soubessem, apertaram o passo para chegar primeiro e alcançar o balcão da recepção.
Lourdes chegou uma mão espalmada na frente.
“Um quarto para pernoite, por favor”
“215”, respondeu a recepcionista.
“Quero o 214 ou 216”, fuzilou Mauro.
Tinha. Ficou com um deles. Apertados, sem se olhar, subiram juntos no elevador de quatro lugares.
Quando chegaram ao quarto, o policial não conseguia desfocar o ouvido da parede do quarto vizinho. Broxou. Nem notava mais a presença de sua companheira. Lá pelas tantas, ele começou a ouvir a gritaria e os palavrões vindos do lado. Só a voz da mulher era ouvida a plenos pulmões. Jamais Lourdes tinha sequer dado um suspiro naqueles anos com ele.
Não aguentou. Puxou a amante pelo braço e arrombou a porta do quarto 215. Entrou com a outra a tiracolo. Nus e em posição exposta, Lourdes e seu amante ficaram petrificados com a entrada repentina.

Com o revólver apontado para a dupla, Mauro exigiu que eles continuassem o que estavam fazendo. Livrando-se de suas roupas e ainda em atitude de ameaça, sendo ele também desleal, Mauro embrenhou-se entre os traidores. Depois de pouco tempo, o calibre 38 já  tinha virado fetiche entre o trio. Todos se satisfizeram várias vezes ao longo da noite. O caso de Mauro acabou no canto do aposento, chorando e sem direito a nome nessa história. Alguém sempre acaba em lágrimas em uma suruba.