Maria de Lourdes trabalhava duas vezes por semana como cuidadora de idosos. Por sua vez, o Policial Militar Mauro, o marido da suposta enfermeira, complementava sua renda como segurança de um prédio comercial. O casal tinha dois filhos pequenos, que eram deixados com uma tia materna para que eles pudessem trabalhar no período noturno e ter uma renda melhor para a subsistência da casa.
Todavia, as informações acima fornecidas caberiam muito bem para ilustrar um álbum de família florido. A realidade esfregava na cara que Maria de Lourdes e Mauro realizavam atividades completamente diferentes das que informavam aos seus convivas. Os empregos eram substituídos por encontros noturnos com os amantes.
No entanto, o importante era manter a pose no culto de domingo e orar antes de consumir as refeições diárias. Pensavam que a infelicidade era menos dolorosa do que separar aquilo que supostamente Deus uniu. E Deus que se virasse com a culpa sozinho.
Casaram apenas para honrar o nascimento do primeiro filho e foram permanecendo juntos. Mauro colocava comida na mesa, Maria de Lourdes caprichava na arrumação da casa. O sexo era realizado somente para manter os votos da sociedade. O policial botava os pés em casa para comer, ver o futebol e dormir. Às vezes, quando se recordava, fazia um cafuné em um dos filhos. A mulher passava os dias mexendo no celular e distribuindo berros e cascudos nos moleques.
Um dia eles tiveram a infelicidade de escolher o mesmo motel para fazer pernoite. Estacionaram o carro ao mesmo tempo na garagem do lugar. Quando saíram dos carros, ambos se avistaram e fingiram que não se conheciam. Talvez não se conhecessem mesmo. Sem que os parceiros soubessem, apertaram o passo para chegar primeiro e alcançar o balcão da recepção.
Lourdes chegou uma mão espalmada na frente.
“Um quarto para pernoite, por favor”
“215”, respondeu a recepcionista.
“Quero o 214 ou 216”, fuzilou Mauro.
Tinha. Ficou com um deles. Apertados, sem se olhar, subiram juntos no elevador de quatro lugares.
Quando chegaram ao quarto, o policial não conseguia desfocar o ouvido da parede do quarto vizinho. Broxou. Nem notava mais a presença de sua companheira. Lá pelas tantas, ele começou a ouvir a gritaria e os palavrões vindos do lado. Só a voz da mulher era ouvida a plenos pulmões. Jamais Lourdes tinha sequer dado um suspiro naqueles anos com ele.
Não aguentou. Puxou a amante pelo braço e arrombou a porta do quarto 215. Entrou com a outra a tiracolo. Nus e em posição exposta, Lourdes e seu amante ficaram petrificados com a entrada repentina.
Com o revólver apontado para a dupla, Mauro exigiu que eles continuassem o que estavam fazendo. Livrando-se de suas roupas e ainda em atitude de ameaça, sendo ele também desleal, Mauro embrenhou-se entre os traidores. Depois de pouco tempo, o calibre 38 já tinha virado fetiche entre o trio. Todos se satisfizeram várias vezes ao longo da noite. O caso de Mauro acabou no canto do aposento, chorando e sem direito a nome nessa história. Alguém sempre acaba em lágrimas em uma suruba.
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