sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A volta do professor de suicídio

Antes de um de seus filhotes nascerem, os homens têm a necessidade de vir com nomes que terão a função de representá-los até o fim de suas existências. Repetem o esquema com qualquer situação. É a mania de rotular e ter controle sobre cada coisa que brota no planeta. Se uma dessas coisas não possui um batismo, logo ela não tem sua existência confirmada. Eu, por exemplo, já tive vários prenomes conhecidos. As criaturas já se referiram a mim como Diabo, Satanás, Satã, Lúcifer, Ω e Professor de Suicídio. Com a intenção de colocar medo e prender seus adeptos, as religiões me chamam de boca cheia pelos quatro primeiros nomes e insistem em me identificar como anjo caído.  Pessoalmente eu prefiro a última alcunha, que me foi dada pelos gregos, por causa de minha habilidade, na época em que eu mantive residência por lá.
Eu aceito ser chamado por qualquer nome desde que eles quebrem diariamente a tábua de Moisés. E eu me sinto quase inútil na modernidade, pois eles aprenderam a agir sozinhos.
Hilária também é a maneira como dão valor a determinados rituais ou indumentárias. Não me sinto cortejado com essas oferendas ou mimos. Não soa muito diferente do carnaval para mim. E ainda dizem que essa época do calendário é coisa minha…
Falei tanto de nomes que acabei me esquecendo de falar sobre de minha habilidade. Eu ajudo pessoas a acabarem com a própria vida. Basta que elas manifestem o desejo através de pensamento ou via escrita (sem essa bobeira de sangue, ok? Pode ser tinta). Eu me materializo e as treino adequadamente com uma carga horária certa para que façam o que têm que fazer. Sou muito profissional.
Eu estava presente quando Getúlio puxou o gatilho, quando Sócrates bebeu cicuta ou quando Judas se enforcou. Marilyn Monroe? Kurt Cobain? Heath Ledger? Tudo obra com assinatura minha. E já falei das cartas de despedida que eu redijo para o consolo da família e de quem interessar possa? E não falo disso sem um certo orgulho, mas é preciso me adiantar porque o espaço é curto e quero contar mais uma pequena história.
Eu estava de férias no Brasil. Após ver uma sessão do filme novo do Selton Mello, eu decidi passar o tempo em um desses shoppings da moda. Um desses garotos de classe média alta decidiu chamar atenção dos familiares e dos amigos nas redes sociais. Portando capacete e joelheiras, bolou uma brincadeira imbecil de pular de um andar superior em cima do toldo de um quiosque de vendas. Calculou que teria umas escoriações. Uns ossos danificados na pior das hipóteses. O idiota também pediu a um amigo que filmasse a ação.
Na hora em que ele saltou, eu conjurei uma ventania que desequilibrou e fez cair o toldo. O moleque foi beijar o chão. E tudo porque eu odeio serviço falso e exibicionismo gratuito. Insuportável agora é aturar o ‘bip’ interminável do monitor dos aparelhos do hospital. Minha vontade é sair desligando tudo. Só que esse bendito país não aceita eutanásia. Bom, pelo menos eu compartilhei o vídeo.

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