Por muitos, a morte é vista como o descanso da alma. O que geralmente não se leva em consideração é que isso só é possível se os vivos entrarem com sua cota de colaboração. Generosidade nem sempre ofertada pelos encarnados. E vira um tal de pedir ao falecido para ajudar a acertar sozinho os números da Loteria Esportiva, a resolver os problemas aparentemente insolúveis da Matemática e a achar o amor definitivo. O canalha do dia anterior corre o risco de se tornar o canonizado da manhã seguinte.
Pedrosa era um capitão do exército aposentado. Faleceu quando ia por volta dos sessenta e cinco anos. Regia seu lar com mão de ferro. A mulher e os três filhos não podiam fazer nada que não passasse pelo seu crivo. Tudo tinha ordem, tempo de execução e supervisão final. Não havia nada que gostasse mais do que flagrar um erro, um delito, um uniforme passado. Era a oportunidade de gritar, esbravejar e flagelar a pobre vítima caseira. Nem a mulher escapava da detenção se a unidade descumprisse o regimento familiar.
Como um câncer não admite submissão e nem respeita hierarquia, o capitão definhou em pouco tempo. Ainda houve tempo para que ele pedisse que seu corpo fosse cremado. Não determinou o lugar. A mulher e os filhos receberam uma urna com as cinzas. Ao invés de eles espalharem o produto da cremação no túmulo de Costa e Silva ou em um jardim do exército, eles preferiram repousar o vasinho em cima da sala. Como não sabiam o que fazer com a liberdade recém-adquirida, os habitantes daquela casa passaram os dias seguintes só olhando para o receptáculo. Como se esperassem que ele se abrisse e uma voz tonitruante determinasse os rumos seguintes daquela casa sem déspota.
Até que o filho mais velho teve uma ideia brilhante. Faria uma espécie de Tábua Ouija - daquelas em que os espíritos se comunicam e enviam mensagens - que consistiria apenas em SIM de um lado e NÃO do outro. Para cada dúvida de um membro da família, um punhado de cinzas seria arremessado na direção do tabuleiro. A resposta seria aquela que concentrasse a maior parte de pó.
Tudo funcionou muito bem por algum tempo. Até o dia em que mudou a diarista. Muito prendada, querendo mostrar serviço, a moça passou o aspirador no vasinho. Ela recolheu tudo com o restante do lixo e colocou em um saco preto.
Sem ordenação, a família permaneceu em prostração até que todos secassem naquela masmorra. O fim não hesita.
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