sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O juiz perfeito

Havia uma sala onde julgamentos eram realizados diariamente. Somente casos singulares eram avaliados no recinto. Um grupo reduzido de pessoas - comprometidas por um contrato de sigilo - faziam as vezes de testemunhas, espectadores e equipe de suporte.
O indivíduo mais honorável do ambiente era o juiz, o senhor absoluto de um espaço de 60 m² e dono de cada respiração pelo tempo que as sessões durassem. Só havia um único togado para julgar todas as questões que fossem enviadas para aquele foro.
Outra peculiaridade era a forma como esses magistrados eram selecionados para a função. O juiz deveria possuir nádegas que encaixassem perfeitamente no banco, inclusive sendo necessário um alinhamento exato do ânus em um ponto x.
Salomão trabalhava como um auxiliar de serviços gerais e cobiçava aquela cadeira há muito tempo. Tinha muita experiência de julgamentos em sua vida. Julgava roupas, sapatos, gestos, aparências e caráteres alheios. Posicionava-se na conta de um avaliador inquestionável. Dia após dia, depois da retirada de grande parte do efetivo, secretamente, o funcionário ia moldando lentamente a cadeira para que ela contivesse o seu próprio quadril e destituísse automaticamente o juiz em exercício. Tomou a precaução de engordar de forma descomunal, para que outro jamais buscasse o mesmo tipo de ideia que ele teve.
Dito e feito. Um dia, logo no começo de uma sessão, o juiz observou que a cadeira estava muito larga para o seu quadril. Atestou o fato de forma consternada, mas levantou-se, acusou o golpe e informou o fato aos presentes. Retirou-se cabisbaixo.
O protocolo mandava que o escolhido saísse dos presentes no momento de renúncia ou impossibilidade de exercer o ofício. Bastava que os cidadãos manifestassem o desejo de ocupar a cadeira.
Todos os presentes levantaram o braço direito e se colocaram à disposição para se submeter ao teste. Salomão era um deles. Já sabendo qual seria o resultado final, o auxiliar de serviços gerais se posicionou para ser o último da prova. Como era de se esperar, todos fracassaram miseravelmente na tentativa. Faltava muita carne para cumprir o que o posto requisitava. Salomão preparou-se para sentar com um sorriso e a certeza da vitória. Mal encostou as ancas, a cadeira espatifou-se em um milhão de pedaços de madeira. Ele caiu de costas. E ali ficou, sem qualquer mão que se prontificasse a alçá-lo do solo frio.
Sem a cadeira, todos se tornaram juízes. As sentenças são impasses eternos. Os casos deixaram de ser singulares. Todos se julgam o tempo todo e a qualquer coisa que aparecer pelo caminho.

Embora Salomão ainda esteja de costas no chão, ele também não se furta de dar seus palpites para embolar mais ainda a coisa toda.

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