(Inspirado pelo poema homônimo de Manuel Bandeira)
Com o advento das pré-estreias cinematográficas em sessões de meia-noite, os adolescentes começaram a encarar isso como uma espécie de aventura. E a situação ficou ainda evidente com o grande surgimento de filmes de super-heróis. Haja lançamentos e expectativas. Usando a desculpa da integração, da segurança e de uma boa pizza, Amarildo e Janete se infiltravam no programa dos dois filhos. O filme da vez era o novo da franquia Homem-Aranha.
Cumpriram toda a programação pós-filme com uma meio Calabresa meio Portuguesa, chopes e refrigerantes. E ainda incluíram uma rodada de Petit Gateau com sorvete de creme e calda de chocolate para o grupo. Acabada a farra gastronômica, como o cinema e a pizzaria ficavam próximos de casa, decidiram seguir a pé para desgastar. Caminhada de duas quadras até o destino. Não dava nem tempo de serem alcançados pela violência urbana. O frio do inverno fazia com que andassem ainda mais rápido. A família morava em um prédio pequeno, localizado no fim de uma rua estreita.
Quando estavam a uma distância de cinquenta metros do edifício, avistaram um animal grande remexendo o lixo do condomínio de forma furiosa. O focinho do bicho farejava incansável em busca de alimento. Tombava os latões de detritos para que pudesse selecionar algum tesouro na pilha de coisas deterioradas, garrafas, papéis, jornais e papelões. No que encontrava um naco de banana, migalhas de biscoito, sobras de quentinha ou uma metade de um pão, a criatura, sem exames, enfiava o achado de uma vez na boca. Engolia com avidez.
Atônitos, sem conseguir rotular a aberração, Amarildo, Janete e as crianças se mantiveram em uma zona de conforto. O gesto do pai de família foi pegar um pedaço de madeira para investir contra a fera caso fosse necessário. Pediu para a esposa e os filhos permanecerem escondidos atrás de uma caminhonete estacionada. Foi avançando pé ante pé, medindo os passos e avaliando os movimentos do monstro.
Ao chegar na faixa de quinze metros, Amarildo deduziu que se tratava de um quadrúpede muito peludo e escuro. Talvez fosse uma besta evadida do zoológico. A pele do ser fumegava com o ar gelado.
Aproximou-se ainda mais. O monstrengo estava tão entretido com seus restos que nem se apercebeu da movimentação no entorno. Amarildo preparava-se para desferir um golpe que nocautasse o oponente. Ergueu as mãos bem alto para realizar a agressão. Indefeso, o animal olhou-o nos olhos nesse exato instante, com um pedido implícito de clemência. Tinha os olhos vermelhos e embotados do que parecia ser esgotamento pela busca quase vã. O que parecia escuridão da pele era somente sujeira; os pelos excessivos, andrajos que tinham grudado no couro. O bicho não era um cão descomunal, não era um gato modificado geneticamente ou uma bizarrice não catalogada. O bicho, meu Deus, era um homem.
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