Reynaldo era um sujeito beneficiado pela genética. Pele jambo, olhos verdes, longos cabelos encaracolados, sorriso perfeito, corpo musculoso e uma grande simpatia. É verdade que contribuía um bocado para o estereótipo do homem bonito e burro, mas isso era relevado por conta da forma como o rapaz costumava levar a vida. Principalmente entre seus amigos, onde costumava patrocinar as farras.
O moço era herdeiro de uma das famílias mais abastadas da cidade. Filho único. Um autêntico Sousa D`Ávila, sobrenome no logotipo em um dos mais importantes escritórios jurídicos do país. O preço de ter uma vida mansa era liberdade cerceada. O dinheiro vinha na mesma medida em que as cobranças eram executadas.
Aos 25 anos, o jovem só queria saber de pegar onda e frequentar as baladas. Raramente sabia o que tinha sido servido no café da manhã. O despertador era o tilintar de garfos e facas e o bater de copos e pratos. Já tinha trancado a faculdade de direito umas cinco vezes; a de administração, outras duas. Fora os cursos que mal passavam da inscrição.
Alberto, o pai, estava exausto em arrumar-lhe trabalho no escritório de amigos. O recorde pessoal de permanência profissional de Reynaldo era de três meses.
Além de inventar futilidades para gastar os fartos vinténs, o ofício de Elisa era arrumar desculpas e dizer que o filho era muito garoto para aturar aquela pressão toda do patriarca. Um dos maiores prazeres da matrona era colocar o marmanjão no colo e ficar fazendo cafuné. Apesar das inúmeras empregadas, ela mesma fazia questão de fazer a comida do mancebo. Ridículos mesmo eram os aviõezinhos na boca. Até hoje ele não sabia direito como utilizar os talheres na mesa. Só comia tudo bem picadinho.
A idiossincrasia do rapazote era o gosto por um tipo específico de mulheres. Por seu perfil de Adonis, ele poderia seduzir a grande maioria delas. E fazia mesmo suspirar uma parte considerável da ala feminina. Porém, ainda que as belas lhe desejassem e se declarassem abertamente, ele não queria nada com elas. Chegava até a ser descortês com as insistentes. Só tinha desejo pelas feias. Aliás, quanto mais desarmoniosa a mulher fosse, mais Reynaldo ficava louco.
Um dia, Alberto chegou do trabalho com um ar cansado, desolado, e pediu a palavra no jantar. Informou ao filho e à esposa que tinha sido diagnosticado com Alzheimer, ainda em estágio leve. Queria fazer um pedido específico a Reynaldo. Segundo ele, a solicitação seria a última que faria em vida. Caso conseguisse realizar, teria tudo dele. O advogado queria um neto.
O surfista seduziu e engravidou Gerusa, uma doidinha que ficava gritando palavrões pela rua. Levou a mulher para casa e assumiu o filho. Quando ela se excede, ele dá dois comprimidos que colocam a coisa nos eixos por horas. Dá tempo de sobra para ir a praia ou nas festanças. E ela não tem nenhuma vaidade.
Agora muito manso, o vovô virou o cavalinho do neto. A avó da criança é que virou a encarregada dos coices. É muito provável que as primeiras palavras do moleque sejam nomes horrorosos.
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