quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Trem fantasma

O trem fantasma é um dos brinquedos mais populares em um parque de diversões. Nas primeiras versões, os donos dos parques espalhavam coisas sombrias durante o trajeto do trenzinho. Conforme o tempo foi passando, caixões com múmias, bonecos molengas e cruzes passaram a incrementar o itinerário dos frequentadores. Por fim, a modernidade trouxe a presença de atores - para interpretar monstros - e tecnologia para surpreender os incautos.
O Parque Millenium era localizado em uma zona nobre da cidade, mas, dentro de sua localização, existiam comunidades em guerra. O confronto entre traficantes e a polícia viviam trazendo os boatos que bandidos estavam escondidos no parquinho. Por várias vezes a polícia deu batidas que não resultaram em presos ou indícios de transgressão às leis.
Chico Vela era o nome do chefe do tráfico da comunidade Trevo de Seis, que se encontrava em guerra com o morro ao lado, a Pedreira. Em uma dessas guerras por controle, o traficante foi acuado e obrigado a fugir debaixo de tiros. A lenda urbana acabou encontrando a verdade quando o meliante se refugiou no Millenium, exatamente no trem fantasma. Ele e mais cinco conseguiram fugir com algumas armas, um pouco de drogas e mantimentos para poucos dias. Desalojaram a múmia, levantaram vários quebra-molas no entorno, barricadas com sacos de cimento, e construíram um pequeno barraco no lugar. Vizinhos, o vampiro e o lobisomem nem se incomodaram com o que acharam que fosse mais veracidade no entretenimento.
Depois de um período, os recursos de Chico Vela e dos comparsas começaram a escassear. Como medida de solução, os meliantes começaram a cometer roubos, a vender drogas e a praticar violências de todos os tipos no brinquedo. Os atos chegaram aos ouvidos da administração do parque, que resolveu acionar a polícia. A polícia achou divertida a ideia e se instalou como atração ao lado dos traficantes, onde eles fingem que brigam e ganham uma parte dos lucros pela interpretação.

O público achou sensacional. O Millenium passou a ficar lotado todos os dias. Filas quilométricas até o fim do expediente. Turistas de outras cidades e de outros países vêm com a intenção de sofrerem um assalto programado, agressões gratuitas, latrocínios e de comprarem entorpecentes nas mãos de genuínos bandidos. O parque se empolgou tanto com o sucesso que contratou até um Secretário de Segurança para dar desculpas aos usuários.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Cara de Cavalo

Os bares de Copacabana são pródigos em reunir bêbados com uma característica específica: os que batem cartão no balcão. Seja morte da mãe, aniversário de quinze anos da filha ou um mal súbito do pai, o sujeito está sempre por lá, contando as mesmas bravatas ou as velhas histórias como se tivessem o signo do novo e do original. Aos que são fisgados por esse canto da sereia, só resta balançar com a cabeça e aguentar com os toques sequenciais no corpo para alertar o interlocutor.
Aos finais de semana, Jairo tinha a prática de chegar ao bar no fim da manhã e só se retirar à noite, quando já era rebocado pela esposa ou por uma das filhas pequenas. Era futebol, churrasco, cerveja, traçado e conversa fiada regada a gritaria. No fundo todos falavam e ninguém se ouvia. E tinha vários assim como ele. O Orlando, o Cachoeira, o Demê, o Antunes e o Rival. Trocavam as programações de mulheres e filhos para viajar no fascínio das ancas das moças praieiras.  
O Cara de Cavalo, o catador de papelão, passava sempre por lá para filar cigarros, doses de pinga e uns espetinhos de churrasco. Os homens faziam uma farra imensa com ele. E eles adoravam mexer com o fato de que o catador não suportava palavrões. “Ô Cara de Cavalo, olha aquela buceta na calça de lycra! Não metia a piroca nela? Eu passo uma lábia nela para você. Pago o motel se rolar”, um ou outro dizia. “Que é isso, rapaz? Falta de respeito!”, emendava e seguia caminho. Muitos diziam que o Cara de Cavalo tinha ido parar na rua por causa de um amor frustrado. Já tinham inventado até um nome de mulher, uma fortuna desperdiçada e uma família que ainda busca por ele. E cada um tem a sua própria versão da história alheia.
Com o tempo, o homem foi se acostumando com o linguajar e ficando mais entre os convivas. A fome e a solidão faziam um peso muito maior na balança do que o melindres com palavrões e termos chulos. Cara de Cavalo passou a ser o último a se retirar do bar. Só saía quando a mulher de Jairo vinha recolhê-lo para a cama, onde deitava sem banho e de sapatos, para somente levantar no dia seguinte como se nada tivesse acontecido.
Conforme o tempo foi passando, o repertório de brincadeiras foi se tornando ainda mais pesado.
“Cara de Cavalo, eu deixo você comer minha mulher. Só que você tem que levar três frangos assados, muito torresminho, um engradado de cerveja e uma garrafa de whisky”, pilhava o Jairo.
Repetia semanalmente a chacota, sempre aumentando o número de itens para o outro alcançar o feito. O grupo ria de se arrebentar dos gracejos infames.
Em um domingo, Jairo já caía pelas tabelas no meio da tarde. Cara de Cavalo não deixava que o copo dele ficasse vazio um só instante. Misturava o que podia para garantir que o bêbado ficasse ainda mais chapado. Quando notou que o nocaute técnico era questão de olhar do juiz, o catador saiu à francesa.

A campainha da casa de Jairo soou poucos minutos depois. Quando a esposa de Jair atendeu a porta, Cara de Cavalo estava de joelhos, com uma caixa de bombons, uma flor branca e um poema ruim escrito com letra tremida.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Ball and Chain

Havia uma tribo que não tinha o registro da palavra liberdade em seu repertório. E isso acontecia porque não era necessário registrar algo que era tão natural quanto respirar, ver ou sentir aromas. Todos eram livres para se comportar da maneira como queriam. Executavam coisas no momento em que a vontade lhes tocasse. A linguagem não representava grilhões em seus tornozelos. Palavras surgiam e evanesciam conforme a necessidade de se expressar. E a palavra não cumprindo com o seu trabalho, os gestos ou olhares (ou os dois) tratavam de complementar o que devia ser preenchido. Se queriam andar nus, andavam; caso quisessem adotar uma tanga, faziam assim.
Um ponto negro se inseriu no centro do sol. E foi se tornando cada vez mais dominante, até que trouxesse uma noite precoce àquela aldeia. Uma lona branca enorme caiu próximo ao local onde as crianças praticavam suas estripulias. Repentinamente, a luminosidade da estrela maior voltou a clarear o cenário. De repente, um homenzinho vermelho surgiu de dentro do grande pano branco. Se aprumou e limpou a poeira do uniforme alvo que vestia dos pés à cabeça. Trazia um grosso livro de capa preta debaixo do braço direito e uma sacola pendurada nas costas. Olhava os homens curiosos como se fossem insetos crescidos.
Os locais se aproximavam cada vez mais do homem. Queriam analisá-lo da maneira mais primitiva. Quando observou que a distância e a forma como o checavam ficava cada mais incômoda, o homenzinho fez uso de sua sacola gigantesca. Abriu-a e retirou comidas, temperos, espelhos, fragrâncias, colares de contas, roupas, enfeites para os cabelos, relógios, quadros, instrumentos musicais, serras, facas e foices. Distribuiu o conteúdo da Caixa de Pandora entre os nativos. Os homens pareciam hipnotizados com tantas novidades.

O nanico aproveitou-se da distração para começar a ler o livro negro que trazia consigo. Chamou-o de Livro das Regras. Leu o exemplar com uma entonação que deixava os homens com uma expressão que lembrava entendimento. Babavam uma saliva elástica enquanto ouviam o orador diminuto. Fez isso repetidas vezes ao longo dos outros dias. Tanto foi lendo que os aborígenes assimilaram suas palavras. Conforme a compreensão verdadeira da obra chegava, os tribais iam ficando com a mesma cara, tamanho e cor do homenzinho. Depois todos eles se diplomaram na língua e a adotaram como mãe, se banharam, se perfumaram, se vestiram igual ao tampinha, tiraram RGs e CPFs, pagam IPTU e IPVAS, aprenderam o valor do dinheiro e do egoísmo. A adversidade vem das correntes que saem de seus punhos e tornozelos e que eles arrastam pelas andanças, sempre apressadas, ainda que limitadas pelo excesso de leis, como se possuíssem um objetivo sério.  Eles gostam de se chamar de Raça Humana, mas, sinceramente, são apenas palavras.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Parati azul

Prostitutas e travestis ocupavam aquele espaço que circunda um grande parque. Era comum vê-los por ali da hora em que anoitecia até pouco antes do amanhecer. Circulavam no ponto a bel-prazer, conforme a necessidade do cliente. Uns preferiam o conforto do motel; outros, a rapidez do carro. Havia uma tabela para todas as preferências de lugar e de desejos. E caso o freguês resolvesse pechinchar no valor, a barganha podia ser feita para que se chegasse a um denominador comum.
Eram tempos de violência nas ruas. Muitos dos que vendiam favores sexuais já tinham sido agredidos ou mortos. Nem chegavam a virar estatística, pois, geralmente, interessavam somente a um grupo de amigos e à família. Garotas de programa não afetam a sensibilidade da família brasileira e nem fazem os jornais saírem das bancas.
Uma Parati azul circulava há algum tempo na área de prostituição. Tinha virado uma espécie de lenda do lugar. As pessoas já até esperavam para ver a circulação. Tentaram fazer vídeos ou tirar fotos, mas a placa estava coberta com fita adesiva preta. O vidro fumê não permitia que fosse revelado o ocupante do veículo. Normalmente parava por quinze segundos ou passava em uma velocidade muito baixa. A especulação variava entre timidez e intimidação. Muitos já tinham até abandonado o ponto com medo de levar o tiro de uma hora para outra. Em uma dessas situações, Milady teve a infeliz ideia de correr na direção do carro. Colocou a mão no capô para fazer graça, a Parati arrancou com uma velocidade absurda, deixando a travesti de bunda no asfalto.
Uma vez, quando ninguém mais esperava que o motorista apresentasse sua identidade, o carro parou no mesmo ponto de sempre. O vidro do carona abriu o suficiente para a passagem de um braço. Uma mão apontou para Jessica, uma menina de seus vinte poucos anos e com cara de índia. Pelas roupas, vocabulário e modos, nem parecia que precisava daquilo. E não precisava mesmo. Na realidade, a moça só estava ali para realizar um laboratório para um papel que faria em uma peça de teatro. Já mantinha o disfarce há uns dois meses.
Entrou no carro.
Quando apurou melhor a vista na escuridão, viu um idoso ao volante. Tentou limpar a visão para examinar melhor o rosto. Cabelos brancos fartos com uma mecha cobrindo a testa sulcada. Óculos com lentes grossas. Olhos grandes e curiosos. Pele muito enrugada, com marcas negras de tempo. Era familiar até demais. Foi quando veio o lampejo.
“Vovô!!! O que você está fazendo aqui???”
“Foi ideia de sua mãe. Não tenho nada a ver com isso. Sua mãe é que estava cansada dessa brincadeira e pediu para eu vir aqui para levá-la para casa. Ela quer que você pare de brincar de teatrinho no meio dessas rampeiras e desses veados. Inclusive ela está aqui. É aquele travesti gordo que está ao lado daquela puta loira ali.”
A menina olha para o avô e diz baixinho, “Tem vindo todos os dias. Quase não para no ponto. Está sempre com o mesmo cliente.”

O velho ri de soluçar. Não consegue mais parar. Quando dá uma pausa, ele retoma o fôlego e diz, “Esse é o disfarce do seu pai”

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Idiossincrasias

Reynaldo era um sujeito beneficiado pela genética. Pele jambo, olhos verdes, longos cabelos encaracolados, sorriso perfeito, corpo musculoso e uma grande simpatia. É verdade que contribuía um bocado para o estereótipo do homem bonito e burro, mas isso era  relevado por conta da forma como o rapaz costumava levar a vida. Principalmente entre seus amigos, onde costumava patrocinar as farras.
O moço era herdeiro de uma das famílias mais abastadas da cidade. Filho único. Um autêntico Sousa D`Ávila, sobrenome no logotipo em um dos mais importantes escritórios jurídicos do país. O preço de ter uma vida mansa era liberdade cerceada. O dinheiro vinha na mesma medida em que as cobranças eram executadas.
Aos 25 anos, o jovem só queria saber de pegar onda e frequentar as baladas. Raramente sabia o que tinha sido servido no café da manhã. O despertador era o tilintar de garfos e facas e o bater de copos e pratos. Já tinha trancado a faculdade de direito umas cinco vezes; a de administração, outras duas. Fora os cursos que mal passavam da inscrição.
Alberto, o pai, estava exausto em arrumar-lhe trabalho no escritório de amigos. O recorde pessoal de permanência profissional de Reynaldo era de três meses.
Além de inventar futilidades para gastar os fartos vinténs, o ofício de Elisa era arrumar desculpas e dizer que o filho era muito garoto para aturar aquela pressão toda do patriarca. Um dos maiores prazeres da matrona era colocar o marmanjão no colo e ficar fazendo cafuné. Apesar das inúmeras empregadas, ela mesma fazia questão de fazer a comida do mancebo. Ridículos mesmo eram os aviõezinhos na boca. Até hoje ele não sabia direito como utilizar os talheres na mesa. Só comia tudo bem picadinho.
A idiossincrasia do rapazote era o gosto por um tipo específico de mulheres. Por seu perfil de Adonis, ele poderia seduzir a grande maioria delas. E fazia mesmo suspirar uma parte considerável da ala feminina. Porém, ainda que as belas lhe desejassem e se declarassem abertamente, ele não queria nada com elas. Chegava até a ser descortês com as insistentes. Só tinha desejo pelas feias. Aliás, quanto mais desarmoniosa a mulher fosse, mais Reynaldo ficava louco.
Um dia, Alberto chegou do trabalho com um ar cansado, desolado, e pediu a palavra no jantar. Informou ao filho e à esposa que tinha sido diagnosticado com Alzheimer, ainda em estágio leve. Queria fazer um pedido específico a Reynaldo. Segundo ele, a solicitação seria a última que faria em vida. Caso conseguisse realizar, teria tudo dele. O advogado queria um neto.
O surfista seduziu e engravidou Gerusa, uma doidinha que ficava gritando palavrões pela rua. Levou a mulher para casa e assumiu o filho. Quando ela se excede, ele dá dois comprimidos que colocam a coisa nos eixos por horas. Dá tempo de sobra para ir a praia ou nas festanças. E ela não tem nenhuma vaidade.

Agora muito manso, o vovô virou o cavalinho do neto. A avó da criança é que virou a encarregada dos coices. É muito provável que as primeiras palavras do moleque sejam nomes horrorosos.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O Bicho

(Inspirado pelo poema homônimo de Manuel Bandeira)

Com o advento das pré-estreias cinematográficas em sessões de meia-noite, os adolescentes começaram a encarar isso como uma espécie de aventura. E a situação ficou ainda evidente com o grande surgimento de filmes de super-heróis. Haja lançamentos e expectativas. Usando a desculpa da integração, da segurança e de uma boa pizza, Amarildo e Janete se infiltravam no programa dos dois filhos. O filme da vez era o novo da franquia Homem-Aranha.
Cumpriram toda a programação pós-filme com uma meio Calabresa meio Portuguesa, chopes e refrigerantes. E ainda incluíram uma rodada de Petit Gateau com sorvete de creme e calda de chocolate para o grupo. Acabada a farra gastronômica, como o cinema e a pizzaria ficavam próximos de casa, decidiram seguir a pé para desgastar. Caminhada de duas quadras até o destino. Não dava nem tempo de serem alcançados pela violência urbana. O frio do inverno fazia com que andassem ainda mais rápido. A família morava em um prédio pequeno, localizado no fim de uma rua estreita.
Quando estavam a uma distância de cinquenta metros do edifício, avistaram um animal grande remexendo o lixo do condomínio de forma furiosa. O focinho do bicho farejava incansável em busca de alimento. Tombava os latões de detritos para que pudesse selecionar algum tesouro na pilha de coisas deterioradas, garrafas, papéis, jornais e papelões. No que encontrava um naco de banana, migalhas de biscoito, sobras de quentinha ou uma metade de um pão, a criatura, sem exames, enfiava o achado de uma vez na boca. Engolia com avidez.
Atônitos, sem conseguir rotular a aberração, Amarildo, Janete e as crianças se mantiveram em uma zona de conforto. O gesto do pai de família foi pegar um pedaço de madeira para investir contra a fera caso fosse necessário. Pediu para a esposa e os filhos permanecerem escondidos atrás de uma caminhonete estacionada. Foi avançando pé ante pé, medindo os passos e avaliando os movimentos do monstro.
Ao chegar na faixa de quinze metros, Amarildo deduziu que se tratava de um quadrúpede muito peludo e escuro. Talvez fosse uma besta evadida do zoológico.  A pele do ser fumegava com o ar gelado.

Aproximou-se ainda mais. O monstrengo estava tão entretido com seus restos que nem se apercebeu da movimentação no entorno. Amarildo preparava-se para desferir um golpe que nocautasse o oponente. Ergueu as mãos bem alto para realizar a agressão. Indefeso, o animal olhou-o nos olhos nesse exato instante, com um pedido implícito de clemência. Tinha os olhos vermelhos e embotados do que parecia ser esgotamento pela busca quase vã. O que parecia escuridão da pele era somente sujeira; os pelos excessivos, andrajos que tinham grudado no couro.  O bicho não era um cão descomunal, não era um gato modificado geneticamente ou uma bizarrice não catalogada. O bicho, meu Deus, era um homem.

Das aparências

Maria de Lourdes trabalhava duas vezes por semana como cuidadora de idosos. Por sua vez, o Policial Militar Mauro, o marido da suposta enfermeira, complementava sua renda como segurança de um prédio comercial. O casal tinha dois filhos pequenos, que eram deixados com uma tia materna para que eles pudessem trabalhar no período noturno e ter uma renda melhor para a subsistência da casa.
Todavia, as informações acima fornecidas caberiam muito bem para ilustrar um álbum de família florido. A realidade esfregava na cara que Maria de Lourdes e Mauro realizavam atividades completamente diferentes das que informavam aos seus convivas. Os empregos eram substituídos por encontros noturnos com os amantes.
No entanto, o importante era manter a pose no culto de domingo e orar antes de consumir as refeições diárias. Pensavam que a infelicidade era menos dolorosa do que separar aquilo que supostamente Deus uniu. E Deus que se virasse com a culpa sozinho.
Casaram apenas para honrar o nascimento do primeiro filho e foram permanecendo juntos. Mauro colocava comida na mesa, Maria de Lourdes caprichava na arrumação da casa. O sexo era realizado somente para manter os votos da sociedade. O policial botava os pés em casa para comer, ver o futebol e dormir. Às vezes, quando se recordava, fazia um cafuné em um dos filhos. A mulher passava os dias mexendo no celular e distribuindo berros e cascudos nos moleques.
Um dia eles tiveram a infelicidade de escolher o mesmo motel para fazer pernoite. Estacionaram o carro ao mesmo tempo na garagem do lugar. Quando saíram dos carros, ambos se avistaram e fingiram que não se conheciam. Talvez não se conhecessem mesmo. Sem que os parceiros soubessem, apertaram o passo para chegar primeiro e alcançar o balcão da recepção.
Lourdes chegou uma mão espalmada na frente.
“Um quarto para pernoite, por favor”
“215”, respondeu a recepcionista.
“Quero o 214 ou 216”, fuzilou Mauro.
Tinha. Ficou com um deles. Apertados, sem se olhar, subiram juntos no elevador de quatro lugares.
Quando chegaram ao quarto, o policial não conseguia desfocar o ouvido da parede do quarto vizinho. Broxou. Nem notava mais a presença de sua companheira. Lá pelas tantas, ele começou a ouvir a gritaria e os palavrões vindos do lado. Só a voz da mulher era ouvida a plenos pulmões. Jamais Lourdes tinha sequer dado um suspiro naqueles anos com ele.
Não aguentou. Puxou a amante pelo braço e arrombou a porta do quarto 215. Entrou com a outra a tiracolo. Nus e em posição exposta, Lourdes e seu amante ficaram petrificados com a entrada repentina.

Com o revólver apontado para a dupla, Mauro exigiu que eles continuassem o que estavam fazendo. Livrando-se de suas roupas e ainda em atitude de ameaça, sendo ele também desleal, Mauro embrenhou-se entre os traidores. Depois de pouco tempo, o calibre 38 já  tinha virado fetiche entre o trio. Todos se satisfizeram várias vezes ao longo da noite. O caso de Mauro acabou no canto do aposento, chorando e sem direito a nome nessa história. Alguém sempre acaba em lágrimas em uma suruba.

Demissão do Tinhoso

Fulo da vida, o Diabo passou direto pela secretária celeste e entrou bufando no escritório de Deus. Bateu a porta com toda força. Vinha abanando a carta de demissão na mão esquerda. Como era onisciente, o Todo Poderoso já sabia o que afligia o Sete Peles. De qualquer maneira, Ele quis ouvi-lo para demonstrar Sua grandeza, Sua paciência e tentar colocar em prática suas tão conhecidas artes do convencimento e do apaziguamento.
“Chefe, eu quero minha demissão! Não quero mais administrar o inferno! A situação está totalmente insustentável no abismo. Eu prefiro ficar cobrindo as folgas de São Pedro do que aturando as últimas humilhações. Só chega gente para querer tomar meu lugar. Com todo o respeito, o Eterno vem permitindo mais maldades no mundo do que o meu repertório comporta”
“Posso falar, Didi?”
“Logo no início da criação, naquele caso de Adão e Eva, eu aceitei o argumento de que eu deveria me fantasiar de cobra para criar um efeito dramático. Catei uma fantasia muito mequetrefe de brechó, criei o improviso com a maçã e fiz aquelas falas canastronas que você escreveu como roteirista. Quando o Senhor me pediu que fosse atormentar Jesus no deserto, eu fiquei quarenta dias no sol, sem água, sem protetor solar e sem comida. E já era do seu conhecimento que o seu filhinho protegido me diria não. Depois, tendo a consciência divina de que sou um pau mandado, permite impunemente que esses padres e pastores me pintem como um reles vilão de conto de fadas, o responsável por todas as desgraças mundanas. E o senhor sempre me prometendo que eu seria readmitido como herói no reino dos céus, que os meus dias de provação terminariam algum dia!”
“Já acabou, Didi?”
“Não, claro que não! Para acabar de completar, o senhor me aparece com Mussolini e Hitler de uma vez. Como eu sou um idiota, eu ainda me coloco à disposição para entender tudo. Aí o senhor diz que é um ciclo pensado, para a humanidade entender o que é o bem, a fraternidade, valorizar a liberdade… Fingi que entendi. Só para não azedar a nossa relação de vez. Quase perdi o comando do inferno quando aquelas pestes foram mandadas para lá. Meus seguidores ficaram lobotomizados e gritando palavras de ordem por muito tempo. No entanto, apesar de tudo, o Altíssimo me aparece com Saddam Hussein, Osama Bin Laden, Hugo Chávez, George Bush, Kim Jong-Un, Donald Trump, Neonazistas e os seguidores de Jair Bolsonaro. Quase todos na mesma época. Não dá! O que vai ser de mim? Não quero mais liderar as Trevas! Aceite minha demissão, por gentileza. Vou tirar um período sabático”
“Agora acabou, Didi? Tenho duas boas notícias para você. A primeira é que seu pedido de readmissão no céu foi aclamado por unanimidade. Vamos reescrever a história e conceder anistia total para você. Terá honras de filho amado nessa nova era. Arranjaremos um jeito para que você tenha seu próprio evangelho e seja louvado em todos os templos cristãos. Eu ditarei uma oração a um profeta para que os homens peçam prodígios em seu nome”
“E qual a segunda boa notícia?”

“Já estamos treinando um substituto para você. Ele é odioso, pratica o mal de maneira descarada, sabe lidar com baixíssima popularidade e está se saindo muito bem em uma franquia nossa no Tártaro. O nome dele é Michel Temer”

O juiz perfeito

Havia uma sala onde julgamentos eram realizados diariamente. Somente casos singulares eram avaliados no recinto. Um grupo reduzido de pessoas - comprometidas por um contrato de sigilo - faziam as vezes de testemunhas, espectadores e equipe de suporte.
O indivíduo mais honorável do ambiente era o juiz, o senhor absoluto de um espaço de 60 m² e dono de cada respiração pelo tempo que as sessões durassem. Só havia um único togado para julgar todas as questões que fossem enviadas para aquele foro.
Outra peculiaridade era a forma como esses magistrados eram selecionados para a função. O juiz deveria possuir nádegas que encaixassem perfeitamente no banco, inclusive sendo necessário um alinhamento exato do ânus em um ponto x.
Salomão trabalhava como um auxiliar de serviços gerais e cobiçava aquela cadeira há muito tempo. Tinha muita experiência de julgamentos em sua vida. Julgava roupas, sapatos, gestos, aparências e caráteres alheios. Posicionava-se na conta de um avaliador inquestionável. Dia após dia, depois da retirada de grande parte do efetivo, secretamente, o funcionário ia moldando lentamente a cadeira para que ela contivesse o seu próprio quadril e destituísse automaticamente o juiz em exercício. Tomou a precaução de engordar de forma descomunal, para que outro jamais buscasse o mesmo tipo de ideia que ele teve.
Dito e feito. Um dia, logo no começo de uma sessão, o juiz observou que a cadeira estava muito larga para o seu quadril. Atestou o fato de forma consternada, mas levantou-se, acusou o golpe e informou o fato aos presentes. Retirou-se cabisbaixo.
O protocolo mandava que o escolhido saísse dos presentes no momento de renúncia ou impossibilidade de exercer o ofício. Bastava que os cidadãos manifestassem o desejo de ocupar a cadeira.
Todos os presentes levantaram o braço direito e se colocaram à disposição para se submeter ao teste. Salomão era um deles. Já sabendo qual seria o resultado final, o auxiliar de serviços gerais se posicionou para ser o último da prova. Como era de se esperar, todos fracassaram miseravelmente na tentativa. Faltava muita carne para cumprir o que o posto requisitava. Salomão preparou-se para sentar com um sorriso e a certeza da vitória. Mal encostou as ancas, a cadeira espatifou-se em um milhão de pedaços de madeira. Ele caiu de costas. E ali ficou, sem qualquer mão que se prontificasse a alçá-lo do solo frio.
Sem a cadeira, todos se tornaram juízes. As sentenças são impasses eternos. Os casos deixaram de ser singulares. Todos se julgam o tempo todo e a qualquer coisa que aparecer pelo caminho.

Embora Salomão ainda esteja de costas no chão, ele também não se furta de dar seus palpites para embolar mais ainda a coisa toda.

A volta do professor de suicídio

Antes de um de seus filhotes nascerem, os homens têm a necessidade de vir com nomes que terão a função de representá-los até o fim de suas existências. Repetem o esquema com qualquer situação. É a mania de rotular e ter controle sobre cada coisa que brota no planeta. Se uma dessas coisas não possui um batismo, logo ela não tem sua existência confirmada. Eu, por exemplo, já tive vários prenomes conhecidos. As criaturas já se referiram a mim como Diabo, Satanás, Satã, Lúcifer, Ω e Professor de Suicídio. Com a intenção de colocar medo e prender seus adeptos, as religiões me chamam de boca cheia pelos quatro primeiros nomes e insistem em me identificar como anjo caído.  Pessoalmente eu prefiro a última alcunha, que me foi dada pelos gregos, por causa de minha habilidade, na época em que eu mantive residência por lá.
Eu aceito ser chamado por qualquer nome desde que eles quebrem diariamente a tábua de Moisés. E eu me sinto quase inútil na modernidade, pois eles aprenderam a agir sozinhos.
Hilária também é a maneira como dão valor a determinados rituais ou indumentárias. Não me sinto cortejado com essas oferendas ou mimos. Não soa muito diferente do carnaval para mim. E ainda dizem que essa época do calendário é coisa minha…
Falei tanto de nomes que acabei me esquecendo de falar sobre de minha habilidade. Eu ajudo pessoas a acabarem com a própria vida. Basta que elas manifestem o desejo através de pensamento ou via escrita (sem essa bobeira de sangue, ok? Pode ser tinta). Eu me materializo e as treino adequadamente com uma carga horária certa para que façam o que têm que fazer. Sou muito profissional.
Eu estava presente quando Getúlio puxou o gatilho, quando Sócrates bebeu cicuta ou quando Judas se enforcou. Marilyn Monroe? Kurt Cobain? Heath Ledger? Tudo obra com assinatura minha. E já falei das cartas de despedida que eu redijo para o consolo da família e de quem interessar possa? E não falo disso sem um certo orgulho, mas é preciso me adiantar porque o espaço é curto e quero contar mais uma pequena história.
Eu estava de férias no Brasil. Após ver uma sessão do filme novo do Selton Mello, eu decidi passar o tempo em um desses shoppings da moda. Um desses garotos de classe média alta decidiu chamar atenção dos familiares e dos amigos nas redes sociais. Portando capacete e joelheiras, bolou uma brincadeira imbecil de pular de um andar superior em cima do toldo de um quiosque de vendas. Calculou que teria umas escoriações. Uns ossos danificados na pior das hipóteses. O idiota também pediu a um amigo que filmasse a ação.
Na hora em que ele saltou, eu conjurei uma ventania que desequilibrou e fez cair o toldo. O moleque foi beijar o chão. E tudo porque eu odeio serviço falso e exibicionismo gratuito. Insuportável agora é aturar o ‘bip’ interminável do monitor dos aparelhos do hospital. Minha vontade é sair desligando tudo. Só que esse bendito país não aceita eutanásia. Bom, pelo menos eu compartilhei o vídeo.

A última morada

Amélia tinha ficado viúva há cerca de três anos, mas jamais ficava um dia sem pensar na figura do marido. Conservou as roupas, os livros e objetos pessoais que ele mais gostava. As fotos ainda estavam espalhadas nos quadros e porta-retratos da casa para demarcar a presença do cônjuge ausente.
Em todas as datas festivas do casal (data em que se conheceram, namoro e casamento) e Finados, a senhorinha ia ao cemitério para conversar com o marido e rezar pela sua alma. Passava a tarde inteira por lá. Ainda que fosse algo muito doloroso, ela fazia questão de ir sozinha. Ajoelhava, rezava e passava as últimas notícias de casa ao falecido Ataíde.
Naquela data específica, coincidindo com o dia dos mortos, Amélia iria velar o túmulo do marido e contar-lhe sobre a novidade da gravidez da filha mais velha. Como era na época em que o marido estava vivo, a mulher se enchia de ansiedade, ficava com os nervos alterados. Precisava de seus calmantes para se aprumar. Não foi diferente dessa vez. Logo depois do almoço, com o auxílio das gotas milagrosas, ela seguiu para o recanto dos extintos.
A sepultura do marido ficava a uma distância bem significativa da entrada. Seguia com passinhos medidos até o destino. Uma água aqui, um lencinho de rosto acolá.
Finalmente chegou ao destino. As mãos tremiam e não sabia por onde começar a contar a boa nova. Quando conseguiu verbalizar a situação, Amélia não parou mais. Disse inclusive que sugeriu o nome do companheiro para a criança caso fosse um menino. Falou do enxoval, da reforma que a filha fez para receber o neto. Esgotou tudo o que tinha em mente com relação aos assuntos de ordem familiar. Resolveu partir para a parte final da visita. Rezaria o Pai Nosso, a Ave Maria, um Salve Maria e acenderia a velinha para iluminar o caminho do cônjuge.
O Rivotril fez efeito quando era bendito o fruto do vosso ventre. A mulher dormiu fazendo a lápide de travesseiro. Ao despertar da sesta inesperada e profunda, ela pôde atestar que já era noite. Pelo que observou no relógio, os portões do cemitério já tinham fechado há três horas. Ficou desesperada.
Correu para o muro que dava para uma parte da rua e começou a berrar. Alguns poucos passantes fugiram por acreditar que as almas penadas resolveram se rebelar justamente no dia reservado a elas. Outros - viciados no Walking Deads da vida - tacaram pedras e madeiras no zumbi atrevido.

Aliviada, Amélia viu carros de polícia fazendo blitz a uns cinquenta metros. Voou na direção, sempre rente ao muro. Aos gritos, gesticulando um bocado, tentou chamar a atenção dos guardas. Por via das dúvidas, como não entendia do que se tratava, um deles disparou o fuzil na direção do que entendeu como ameaça. Acertou em cheio. Sem saber, o agente da lei servia como juiz de paz e realizava uma nova cerimônia de união entre Amélia e Ataíde.

Homofobólico

Depois de cinquenta anos sem que um time pequeno tivesse executado tal feito, o Itatiaia, clube do interior do Brasil, havia acabado de conquistar o título estadual contra um de seus maiores vencedores, o Atlético. O placar de 5 a 0 não deixava a menor dúvida de que o jogo tinha sido uma exibição de gala da agremiação considerada menor.
O atacante Totonho foi o destaque daquela tarde de glórias, marcando três gols memoráveis e armando as jogadas dos outros dois. A imprensa já ventilava há tempos o interesse de clubes de São Paulo e Rio de Janeiro pelo craque.
Logo depois de erguer o troféu, ao ser abordado por equipes de TV e rádio, Totonho disse que tinha uma revelação a fazer na coletiva de imprensa. E todos ficaram alvoroçados com a possibilidade de que o atleta dissesse o nome de seu novo clube.
Os microfones e as câmeras estavam postados para receber a revelação. Entre o presidente Antônio Zabocas e o técnico Travini, o jogador parecia nervoso, vacilante. O silêncio se fez para receber a informação. Totonho aproximou a boca do microfone em câmera lenta.
“Boa noite, pessoal. Sou atleta do Itatiaia desde a base. Essa é a minha casa. Sinto que devo começar a ser honesto por aqui. E penso que um dia de alegria também seja propício a uma revelação. Ao contrário do que vocês pensam, eu não vim aqui para dizer o nome de meu novo clube. Apesar de meu empresário já conversar com alguns interessados, isso não é o mais importante. Tenho algo mais sério para dizer”
Fez uma pausa longa e encarou o público de jornalistas, dirigentes e colegas de equipe. Quietude na sala.
“Sou homossexual. Queria aproveitar essa oportunidade de algo que é um tabu no mundo do futebol. Dizem que futebol é para homens. Não, o futebol é democrático, é para todos os que desejarem praticá-lo. A ignorância é que cria regras preconceituosas para restringi-lo. Muitos colegas também são gays e temem as retaliações. Eu não. Confio no meu talento e na inteligência dos que aqui ouvem e dos outros que ouvirão futuramente essa entrevista. Somente oito atletas se declararam no mundo inteiro. Ninguém teve coragem de assumir essa posição no país. Quero ser o primeiro a fazer isso e ajudar outros que estejam sufocados com esse segredo”
Dava para andar sobre o silêncio materializado no espaço da coletiva.
“Alguma pergunta?”, questionou o presidente Zabocas.
Nenhuma pergunta.
O dirigente saiu rebocando seu jogador.
Palmas esparsas pelo lugar.
No dia seguinte, o título e a vitória magnífica do Itatiaia tinham passado a um segundo plano.
As manchetes diziam:
“Jogador Totonho se declara gay”
“Namorados de craque do Itatiaia fazem revelações quentíssimas sobre os relacionamentos”
“Totonho sai do armário batendo porta”
Três  de vendas estratosféricas de revistas e jornais com detalhes sobre a declaração do jogador. Muitas verdades e mentiras. Mais mentiras que verdades. Porque são as mentiras que dão liga nos assuntos da mesa de almoço, de jantar e do bar.
Os patrocinadores de Totonho cancelaram os contratos pouco antes do retorno do time para a disputa de um novo torneio. A desculpa é que não queriam suas marcas atreladas a uma bandeira de defesa de uma causa. As marcas declaravam-se a favor da diversidade, sem declarar preferências.
Os treinamentos recomeçaram. A principal torcida organizada do clube compareceu com faixas de protesto. Não desejavam um gay como profissional de seu clube.
Nenhum clube fez proposta por Totonho.
Já no segundo treino, o atacante apareceu com o colete do time reserva. No último treinamento para a estreia na segunda divisão do Brasileirão, o jogador tomou uma entrada criminosa de zagueiro recém-contratado. Rompimento de ligamentos cruzados. Meses afastado. Quando retornou aos campos, o atleta e seu empresário receberam uma proposta de rescisão contratual amigável.
Depois de perambular por times e divisões, passar por mais perseguições, Totonho encerrou a carreira aos 25 anos.
Vez ou outra, o nome do ex-jogador ressurge em programas esportivos como um talento desperdiçado do esporte.

“Pena que ele tivesse tantas lesões, não é?”, dizem sempre os especialistas das quatro linhas.

Arma desmuniciada

Jair tinha perdido completamente o apetite sexual. Era casado há alguns anos e tinha o apoio da esposa para buscar auxílio. Já tinha ido a vários médicos sem conseguir resultado algum para o mal que o afligia. E foi algo que aconteceu em um estalo, sem aviso prévio. Talvez, caso tivesse perdido a potência gradativamente, ele tivesse aceitado melhor a questão. A situação é que o casal tentou usar fetiches, fantasias sexuais e lugares incomuns. Nada adiantou. Achando que pudesse ser rejeição à sua parceira, ele tentou filmes pornôs, revistas de nu feminino e até outras mulheres. Nada novamente.
O homem foi se apagando para outras questões triviais da vida. Aliás, apesar de ser visivelmente masculino, só repetia para si mesmo que não era mais homem. Evitava a parceira e dormia no sofá. Deixou de comer. E só não largou de beber porque o álcool era o que desviava a angústia. E foi o dissabor que o levou a escrever a carta de demissão para o chefe de tantos anos. Segundo o plano original, escreveria uma nova carta - agora para a companheira - e pegaria o 38. para dar cabo do martírio.
Entrou em casa na pontinha dos pés. Não desejava mais olhar para o rosto da esposa, pois podia se acovardar diante de um olhar dela. Quando já se dirigia ao seu quarto, ele começou a ouvir vozes ofegantes, que ficavam cada vez mais altas. Encontrou a porta entreaberta e viu um homem com movimentos ritmados intensos em cima de sua mulher. E como ela bufava, gemia, esperneava e se entregava...
Arregalou os olhos e suou. Uma atividade violenta iniciou-se entre as suas pernas. O sangue irrigou o corpo cavernoso e gerou a ereção desacreditada.

Masturbando-se, invadiu subitamente o quarto e começou a gritar, “Não para, não para, não para!”

TFP

A moradora de rua estava sentada na porta de uma grande loja de fast food. Pedia esmolas aos clientes que saíam.
Uma senhora de classe média, muito bem vestida, acompanhada do marido, foi abordada por ela. A mulher encarou a outra dos pés à cabeça. Forneceu-lhe um olhar de desdém e parecia que seu gesto seguinte seria cuspir na outra. Deu dois passos e não se aguentou.
“Não dou! Não dou mesmo!”, berrou para a desvalida escutar.
A pedinte não disse nada. Ficou quieta, diminuída, esperando que a mulher tomasse o rumo dela.
“E ainda tem a coragem de me ignorar! Com essa pança, não tem vergonha nenhuma de ficar pedindo dinheiro. Está muito mais nutrida do que eu!”
A indigente tentava sumir mais ainda no meio dos trapos. O marido esforçava-se para puxar a esposa, mas a certeza de que agredia alguém indefesa a fazia se agigantar. Ela puxava e ela voltava, em um movimento tragicômico para quem testemunhava a cena.
“Gorda, gorda! Ainda por cima, fica na porta de uma lanchonete para ter a chance de engordar mais. Se alguém for oferecer uma faxina ou uma lavagem de roupas, ela vai recusar. Encosto! Peso para a sociedade!”
A necessitada já estava abaixo do chão nessa altura dos acontecimentos. Quando viu a outra tomar alguma distância, ela teve a ideia clara, nítida. Pegou uma faca de cortar pão e golpeou três vezes o pescoço da bem nascida.

Foi presa em flagrante. Agora ela tem refeições diárias garantidas. E o melhor: não precisa pedir mais nada para ninguém. Engordou mais ainda.   

Motel Villanova

A crise no comércio é uma das tônicas no cotidiano da sociedade brasileira. Lojas que ficavam apinhadas pelo público não são agraciadas com o mesmo entusiasmo. Nem mesmo datas emblemáticas como Natal, Dia dos Pais e Dia das Mães são capazes de trazer cifras satisfatórias aos comerciantes. O que mais se vê por aí são placas de “Passo o Ponto” espalhadas pela cidade.
Os motéis também entram nessa cota de decrepitude que vive o mercado. É preciso encontrar soluções criativas para que o negócio respire e seja mais envolvente do que os dos concorrentes. O Motel Villanova não é uma exceção no meio de tanta luta pela sobrevivência financeira.
Sant`Anna havia aprendido com o pai que a forma mais eficaz de se ganhar dinheiro era apostando na compra e aluguel de imóveis. Especializou-se em especular no segmento imobiliário. A família foi aumentando os bens com essa tática. No entanto, ele tinha outros planos para uma propriedade situada em uma região de intensa movimentação empresarial. As traições, as rapidinhas e os namoricos descompromissos da região iriam todos para a conta de seu empreendimento. O que estava pensando dava lucro certo, sem esforço. E deu. Até a época sobre a qual falamos agora.
Na época das vacas magras, o empresário observou que não adiantava mais recorrer aos anúncios ou fazer promoções em datas específicas. Também não valia cadastrar o motel no e-commerce, Guia de Motéis, etc. O volume de clientes só diminuía mês a mês. Resolveu apelar.
Realizou uma promoção em que começou a dar descontos para os casais que se deixassem filmar no ato da transa. Foi sucesso de público e renda.
Esticou ainda mais a ousadia quando prometeu fornecer preços ainda mais em conta para as pessoas que se deixassem filmar e liberassem as imagens para execução nas dependências de seu estabelecimento. Êxito ainda mais retumbante do que na primeira ação de divulgação.
Ao ver que o estabelecimento tinha recuperado de vez a força, o empresário resolveu incrementar novamente. Dispensou os antigos garçons e camareiras e colocou Gogo Boys e Strippers para a execução do serviço. Contratou telefonistas com especialidade erótica. Elaborou quartos temáticos com sadomasoquismo, cracolândia, Big Brother com Pedro Bial, banheiros químicos, aposento do padre, Grand Theft Auto e Cozinha da Ana Maria Braga (com direito a Louro José bancando o voyeur). Por fim, contratou especialistas em sexo oral para substituir possíveis parceiros que tivessem nojo da prática. Novo triunfo.
E continuou a renovar, refinar e modernizar…
E isso durou até o dia em que os japoneses inventaram um aplicativo de motel virtual onde as pessoas podiam escolher seus parceiros, posições e fetiches através de uns cliques no Smartphone.
O negócio broxou de vez.

(Desce o pano!)