sexta-feira, 25 de agosto de 2017

TFP

A moradora de rua estava sentada na porta de uma grande loja de fast food. Pedia esmolas aos clientes que saíam.
Uma senhora de classe média, muito bem vestida, acompanhada do marido, foi abordada por ela. A mulher encarou a outra dos pés à cabeça. Forneceu-lhe um olhar de desdém e parecia que seu gesto seguinte seria cuspir na outra. Deu dois passos e não se aguentou.
“Não dou! Não dou mesmo!”, berrou para a desvalida escutar.
A pedinte não disse nada. Ficou quieta, diminuída, esperando que a mulher tomasse o rumo dela.
“E ainda tem a coragem de me ignorar! Com essa pança, não tem vergonha nenhuma de ficar pedindo dinheiro. Está muito mais nutrida do que eu!”
A indigente tentava sumir mais ainda no meio dos trapos. O marido esforçava-se para puxar a esposa, mas a certeza de que agredia alguém indefesa a fazia se agigantar. Ela puxava e ela voltava, em um movimento tragicômico para quem testemunhava a cena.
“Gorda, gorda! Ainda por cima, fica na porta de uma lanchonete para ter a chance de engordar mais. Se alguém for oferecer uma faxina ou uma lavagem de roupas, ela vai recusar. Encosto! Peso para a sociedade!”
A necessitada já estava abaixo do chão nessa altura dos acontecimentos. Quando viu a outra tomar alguma distância, ela teve a ideia clara, nítida. Pegou uma faca de cortar pão e golpeou três vezes o pescoço da bem nascida.

Foi presa em flagrante. Agora ela tem refeições diárias garantidas. E o melhor: não precisa pedir mais nada para ninguém. Engordou mais ainda.   

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