A educação brasileira enfrenta uma situação inacreditável de abandono. Em uma pesquisa recente, o país apareceu na 60ª posição em um ranking que avalia esse quesito ao redor do mundo. É comum observar a rotina de escolas públicas sem material para um trabalho pedagógico adequado, sem alimentação para os alunos ou com defasagem no quadro de professores. O atraso no salário dos docentes tornou-se um ato recorrente em muitos governos do Brasil. Além disso, os alunos deixaram de almejar o elemento mais importante de uma instituição como essa, o conhecimento. A nota passou a ser o objetivo principal. Ou seja, caso estivéssemos tratando de cinema, o importante não seria assistir um filme, conhecer o seu conteúdo, mas apenas ter uma informação segura sobre o fim.
Heloísa acalentava o sonho de se tornar professora de Língua Portuguesa. No entanto, a moça tinha uma peculiaridade: odiava ler e interpretar textos. Diante de suas pestanas, as letras embaralhavam, tornavam-se insetos peçonhentos, e a cobriam de bile. E o pior é que espalhava aos quatro ventos o quanto detestava os romances, as crônicas, os contos e as poesias. Asco de Drummond, Machado ou Guimarães Rosa. Nelson Rodrigues a fazia ter síncopes. “Tarado, tarado!”, xingava resfolegante quando alguém mencionava uma frase do Anjo Pornográfico.
O que fazia a aspirante ao magistério ficar feliz eram as Gramáticas. Babava nos Celsos Cunhas, nos Becharas, Pasquales e Cegallas. E passava longe de ser só por causa da preservação da língua, o apuro técnico. O que a deixava excitada eram as regras, a aplicação da lei fria no mundo das letras.
Admirava a ordem dos dicionários. Uma letra organizada após a outra, sem qualquer tipo de ultrapassagem imprudente de qualquer uma das vinte e seis existentes no nosso alfabeto. Arrumação, distribuição, ordenamento. Sem intempéries.
Para conseguir absorver o conteúdo gramatical, a garota aderiu ao esquema de videoaulas no YouTube. Tendo o espelho como interlocutor, decorou e repetiu códigos à exaustão. Quando veio o concurso para ser professora, ela se submeteu e se classificou por uma unha. Foi convocada para entrar em sala de aula. Os alunos eram obrigados a caminhar na estrada esburacada e de terra batida que ela criasse para o tráfego. O importante era azular o boletim.
Passou a atirar Substantivos, Verbos, Adjetivos, Advérbios, Pronomes, Orações Coordenadas, Subordinadas e outros nas cabeças dos estudantes. O quadro continuava mais limpo que nunca, pois ela sempre recorria ao suporte dos livros endossados pelo Ministério da Educação. Chegava a ter sonhos eróticos onde o ministro em pessoa lhe aplicava vigorosos tapas na cara. E parecia tão real que chegava a acordar de cara vermelha.
Entre a obediência cega de portarias, circulares e resoluções, disparava-lhe o coração escutar o sinal de entrada da escola, fazer a chamada das classes, preencher diários e assinar a folha de ponto. Jamais faltava ou chegava atrasada. Tinha urticária quando mencionavam uma greve ou um ponto facultativo. Chegou ao ponto de trabalhar com a perna quebrada. Não seria um atestado de um médico que a colocaria fora de combate.
O governo resolveu testar o nível de seus mestres. Se os alunos não tinham interesse e não evoluíam, o problema só podia estar em quem ensinava. A chefia passou cartilhas de alfabetização e livros de autoajuda como materiais de estudo. Exigiu que os professores fizessem provas em um sábado. Com inúmeros erros ortográficos, concordância e de argumentação, Heloísa tirou zero na redação. E foi o que a credenciou a trabalhar em um alto cargo na Secretaria de Educação.
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