sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A última morada

Amélia tinha ficado viúva há cerca de três anos, mas jamais ficava um dia sem pensar na figura do marido. Conservou as roupas, os livros e objetos pessoais que ele mais gostava. As fotos ainda estavam espalhadas nos quadros e porta-retratos da casa para demarcar a presença do cônjuge ausente.
Em todas as datas festivas do casal (data em que se conheceram, namoro e casamento) e Finados, a senhorinha ia ao cemitério para conversar com o marido e rezar pela sua alma. Passava a tarde inteira por lá. Ainda que fosse algo muito doloroso, ela fazia questão de ir sozinha. Ajoelhava, rezava e passava as últimas notícias de casa ao falecido Ataíde.
Naquela data específica, coincidindo com o dia dos mortos, Amélia iria velar o túmulo do marido e contar-lhe sobre a novidade da gravidez da filha mais velha. Como era na época em que o marido estava vivo, a mulher se enchia de ansiedade, ficava com os nervos alterados. Precisava de seus calmantes para se aprumar. Não foi diferente dessa vez. Logo depois do almoço, com o auxílio das gotas milagrosas, ela seguiu para o recanto dos extintos.
A sepultura do marido ficava a uma distância bem significativa da entrada. Seguia com passinhos medidos até o destino. Uma água aqui, um lencinho de rosto acolá.
Finalmente chegou ao destino. As mãos tremiam e não sabia por onde começar a contar a boa nova. Quando conseguiu verbalizar a situação, Amélia não parou mais. Disse inclusive que sugeriu o nome do companheiro para a criança caso fosse um menino. Falou do enxoval, da reforma que a filha fez para receber o neto. Esgotou tudo o que tinha em mente com relação aos assuntos de ordem familiar. Resolveu partir para a parte final da visita. Rezaria o Pai Nosso, a Ave Maria, um Salve Maria e acenderia a velinha para iluminar o caminho do cônjuge.
O Rivotril fez efeito quando era bendito o fruto do vosso ventre. A mulher dormiu fazendo a lápide de travesseiro. Ao despertar da sesta inesperada e profunda, ela pôde atestar que já era noite. Pelo que observou no relógio, os portões do cemitério já tinham fechado há três horas. Ficou desesperada.
Correu para o muro que dava para uma parte da rua e começou a berrar. Alguns poucos passantes fugiram por acreditar que as almas penadas resolveram se rebelar justamente no dia reservado a elas. Outros - viciados no Walking Deads da vida - tacaram pedras e madeiras no zumbi atrevido.

Aliviada, Amélia viu carros de polícia fazendo blitz a uns cinquenta metros. Voou na direção, sempre rente ao muro. Aos gritos, gesticulando um bocado, tentou chamar a atenção dos guardas. Por via das dúvidas, como não entendia do que se tratava, um deles disparou o fuzil na direção do que entendeu como ameaça. Acertou em cheio. Sem saber, o agente da lei servia como juiz de paz e realizava uma nova cerimônia de união entre Amélia e Ataíde.

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