sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Homofobólico

Depois de cinquenta anos sem que um time pequeno tivesse executado tal feito, o Itatiaia, clube do interior do Brasil, havia acabado de conquistar o título estadual contra um de seus maiores vencedores, o Atlético. O placar de 5 a 0 não deixava a menor dúvida de que o jogo tinha sido uma exibição de gala da agremiação considerada menor.
O atacante Totonho foi o destaque daquela tarde de glórias, marcando três gols memoráveis e armando as jogadas dos outros dois. A imprensa já ventilava há tempos o interesse de clubes de São Paulo e Rio de Janeiro pelo craque.
Logo depois de erguer o troféu, ao ser abordado por equipes de TV e rádio, Totonho disse que tinha uma revelação a fazer na coletiva de imprensa. E todos ficaram alvoroçados com a possibilidade de que o atleta dissesse o nome de seu novo clube.
Os microfones e as câmeras estavam postados para receber a revelação. Entre o presidente Antônio Zabocas e o técnico Travini, o jogador parecia nervoso, vacilante. O silêncio se fez para receber a informação. Totonho aproximou a boca do microfone em câmera lenta.
“Boa noite, pessoal. Sou atleta do Itatiaia desde a base. Essa é a minha casa. Sinto que devo começar a ser honesto por aqui. E penso que um dia de alegria também seja propício a uma revelação. Ao contrário do que vocês pensam, eu não vim aqui para dizer o nome de meu novo clube. Apesar de meu empresário já conversar com alguns interessados, isso não é o mais importante. Tenho algo mais sério para dizer”
Fez uma pausa longa e encarou o público de jornalistas, dirigentes e colegas de equipe. Quietude na sala.
“Sou homossexual. Queria aproveitar essa oportunidade de algo que é um tabu no mundo do futebol. Dizem que futebol é para homens. Não, o futebol é democrático, é para todos os que desejarem praticá-lo. A ignorância é que cria regras preconceituosas para restringi-lo. Muitos colegas também são gays e temem as retaliações. Eu não. Confio no meu talento e na inteligência dos que aqui ouvem e dos outros que ouvirão futuramente essa entrevista. Somente oito atletas se declararam no mundo inteiro. Ninguém teve coragem de assumir essa posição no país. Quero ser o primeiro a fazer isso e ajudar outros que estejam sufocados com esse segredo”
Dava para andar sobre o silêncio materializado no espaço da coletiva.
“Alguma pergunta?”, questionou o presidente Zabocas.
Nenhuma pergunta.
O dirigente saiu rebocando seu jogador.
Palmas esparsas pelo lugar.
No dia seguinte, o título e a vitória magnífica do Itatiaia tinham passado a um segundo plano.
As manchetes diziam:
“Jogador Totonho se declara gay”
“Namorados de craque do Itatiaia fazem revelações quentíssimas sobre os relacionamentos”
“Totonho sai do armário batendo porta”
Três  de vendas estratosféricas de revistas e jornais com detalhes sobre a declaração do jogador. Muitas verdades e mentiras. Mais mentiras que verdades. Porque são as mentiras que dão liga nos assuntos da mesa de almoço, de jantar e do bar.
Os patrocinadores de Totonho cancelaram os contratos pouco antes do retorno do time para a disputa de um novo torneio. A desculpa é que não queriam suas marcas atreladas a uma bandeira de defesa de uma causa. As marcas declaravam-se a favor da diversidade, sem declarar preferências.
Os treinamentos recomeçaram. A principal torcida organizada do clube compareceu com faixas de protesto. Não desejavam um gay como profissional de seu clube.
Nenhum clube fez proposta por Totonho.
Já no segundo treino, o atacante apareceu com o colete do time reserva. No último treinamento para a estreia na segunda divisão do Brasileirão, o jogador tomou uma entrada criminosa de zagueiro recém-contratado. Rompimento de ligamentos cruzados. Meses afastado. Quando retornou aos campos, o atleta e seu empresário receberam uma proposta de rescisão contratual amigável.
Depois de perambular por times e divisões, passar por mais perseguições, Totonho encerrou a carreira aos 25 anos.
Vez ou outra, o nome do ex-jogador ressurge em programas esportivos como um talento desperdiçado do esporte.

“Pena que ele tivesse tantas lesões, não é?”, dizem sempre os especialistas das quatro linhas.

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