Prostitutas e travestis ocupavam aquele espaço que circunda um grande parque. Era comum vê-los por ali da hora em que anoitecia até pouco antes do amanhecer. Circulavam no ponto a bel-prazer, conforme a necessidade do cliente. Uns preferiam o conforto do motel; outros, a rapidez do carro. Havia uma tabela para todas as preferências de lugar e de desejos. E caso o freguês resolvesse pechinchar no valor, a barganha podia ser feita para que se chegasse a um denominador comum.
Eram tempos de violência nas ruas. Muitos dos que vendiam favores sexuais já tinham sido agredidos ou mortos. Nem chegavam a virar estatística, pois, geralmente, interessavam somente a um grupo de amigos e à família. Garotas de programa não afetam a sensibilidade da família brasileira e nem fazem os jornais saírem das bancas.
Uma Parati azul circulava há algum tempo na área de prostituição. Tinha virado uma espécie de lenda do lugar. As pessoas já até esperavam para ver a circulação. Tentaram fazer vídeos ou tirar fotos, mas a placa estava coberta com fita adesiva preta. O vidro fumê não permitia que fosse revelado o ocupante do veículo. Normalmente parava por quinze segundos ou passava em uma velocidade muito baixa. A especulação variava entre timidez e intimidação. Muitos já tinham até abandonado o ponto com medo de levar o tiro de uma hora para outra. Em uma dessas situações, Milady teve a infeliz ideia de correr na direção do carro. Colocou a mão no capô para fazer graça, a Parati arrancou com uma velocidade absurda, deixando a travesti de bunda no asfalto.
Uma vez, quando ninguém mais esperava que o motorista apresentasse sua identidade, o carro parou no mesmo ponto de sempre. O vidro do carona abriu o suficiente para a passagem de um braço. Uma mão apontou para Jessica, uma menina de seus vinte poucos anos e com cara de índia. Pelas roupas, vocabulário e modos, nem parecia que precisava daquilo. E não precisava mesmo. Na realidade, a moça só estava ali para realizar um laboratório para um papel que faria em uma peça de teatro. Já mantinha o disfarce há uns dois meses.
Entrou no carro.
Quando apurou melhor a vista na escuridão, viu um idoso ao volante. Tentou limpar a visão para examinar melhor o rosto. Cabelos brancos fartos com uma mecha cobrindo a testa sulcada. Óculos com lentes grossas. Olhos grandes e curiosos. Pele muito enrugada, com marcas negras de tempo. Era familiar até demais. Foi quando veio o lampejo.
“Vovô!!! O que você está fazendo aqui???”
“Foi ideia de sua mãe. Não tenho nada a ver com isso. Sua mãe é que estava cansada dessa brincadeira e pediu para eu vir aqui para levá-la para casa. Ela quer que você pare de brincar de teatrinho no meio dessas rampeiras e desses veados. Inclusive ela está aqui. É aquele travesti gordo que está ao lado daquela puta loira ali.”
A menina olha para o avô e diz baixinho, “Tem vindo todos os dias. Quase não para no ponto. Está sempre com o mesmo cliente.”
O velho ri de soluçar. Não consegue mais parar. Quando dá uma pausa, ele retoma o fôlego e diz, “Esse é o disfarce do seu pai”
Nenhum comentário:
Postar um comentário