quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Ball and Chain

Havia uma tribo que não tinha o registro da palavra liberdade em seu repertório. E isso acontecia porque não era necessário registrar algo que era tão natural quanto respirar, ver ou sentir aromas. Todos eram livres para se comportar da maneira como queriam. Executavam coisas no momento em que a vontade lhes tocasse. A linguagem não representava grilhões em seus tornozelos. Palavras surgiam e evanesciam conforme a necessidade de se expressar. E a palavra não cumprindo com o seu trabalho, os gestos ou olhares (ou os dois) tratavam de complementar o que devia ser preenchido. Se queriam andar nus, andavam; caso quisessem adotar uma tanga, faziam assim.
Um ponto negro se inseriu no centro do sol. E foi se tornando cada vez mais dominante, até que trouxesse uma noite precoce àquela aldeia. Uma lona branca enorme caiu próximo ao local onde as crianças praticavam suas estripulias. Repentinamente, a luminosidade da estrela maior voltou a clarear o cenário. De repente, um homenzinho vermelho surgiu de dentro do grande pano branco. Se aprumou e limpou a poeira do uniforme alvo que vestia dos pés à cabeça. Trazia um grosso livro de capa preta debaixo do braço direito e uma sacola pendurada nas costas. Olhava os homens curiosos como se fossem insetos crescidos.
Os locais se aproximavam cada vez mais do homem. Queriam analisá-lo da maneira mais primitiva. Quando observou que a distância e a forma como o checavam ficava cada mais incômoda, o homenzinho fez uso de sua sacola gigantesca. Abriu-a e retirou comidas, temperos, espelhos, fragrâncias, colares de contas, roupas, enfeites para os cabelos, relógios, quadros, instrumentos musicais, serras, facas e foices. Distribuiu o conteúdo da Caixa de Pandora entre os nativos. Os homens pareciam hipnotizados com tantas novidades.

O nanico aproveitou-se da distração para começar a ler o livro negro que trazia consigo. Chamou-o de Livro das Regras. Leu o exemplar com uma entonação que deixava os homens com uma expressão que lembrava entendimento. Babavam uma saliva elástica enquanto ouviam o orador diminuto. Fez isso repetidas vezes ao longo dos outros dias. Tanto foi lendo que os aborígenes assimilaram suas palavras. Conforme a compreensão verdadeira da obra chegava, os tribais iam ficando com a mesma cara, tamanho e cor do homenzinho. Depois todos eles se diplomaram na língua e a adotaram como mãe, se banharam, se perfumaram, se vestiram igual ao tampinha, tiraram RGs e CPFs, pagam IPTU e IPVAS, aprenderam o valor do dinheiro e do egoísmo. A adversidade vem das correntes que saem de seus punhos e tornozelos e que eles arrastam pelas andanças, sempre apressadas, ainda que limitadas pelo excesso de leis, como se possuíssem um objetivo sério.  Eles gostam de se chamar de Raça Humana, mas, sinceramente, são apenas palavras.

Um comentário:

  1. Retrato da catequese da Humanidade, em vários estágios... E a analgesia grassa a tal ponto que sequer percebemos mais a dominação, que começa sempre assim, com algo que nos toma de assalto...

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